Quinta-feira. 25 de dezembro. Natal. 7h37 da manhã.
Academia fechada. Óbvio. Feriado universal de presunto, farofa e gente fingindo que gosta de panetone.
Mas eu acordo cedo assim mesmo. Porque se tem uma coisa que me deixa insuportável, chata, irritada, impossível de conviver, é ficar 24 horas sem movimentar o corpo.
Sério. Pergunte pra qualquer pessoa que me conhece.
Mandei mensagem pra minha irmã: "Acordei. Vamos correr?" (tínhamos combinado na mesa de sobremesa ontem à noite de ir queimar os excessos).
Silêncio.
Tomei meu pré-treino. Aquele com Beta-Alanina que faz sua pele formigar como se mil agulhas minúsculas tivessem decidido fazer festa no seu rosto. Sensação estranha. Bom sinal. Corpo ligando.
8h15. Segunda mensagem: "Tô pronta."
Nada.
Estranho. Minha irmã acorda cedo até em feriado. Será que tava tão cansada assim?
9h00. Última tentativa.
Silêncio.
Dane-se. Vou sozinha.
Calcei o tênis. Olhei pela janela.
Sol forte. Céu limpo. Termômetro marcando 30 graus às 9h da manhã. Natal em país tropical é isso: calor que transforma qualquer atividade ao ar livre em teste de resistência involuntário.
Mão na maçaneta.
Voz atrás de mim: "Você vai correr nesse sol forte?"
Tom de preocupação genuína misturada com leve incredulidade. Como se eu não tivesse acesso ao mesmo termômetro. Como se temperatura fosse informação privilegiada que só uma pessoa da casa recebe.
Olhei pra trás. Meio sorriso.
"Não vou deixar de movimentar meu corpo por causa do sol."
Porta. Rua. 30 graus batendo direto na cara.
Primeira passada.
Melhor incentivo que existe.
Sabe por quê?
Porque não existe crescimento sem atrito.
Lembra das últimas edições da newsletter? Hormese. Entropia. Poda sináptica. Seu corpo e mente que precisam de estresse calculado ou começam processo silencioso de degradação.
Tudo aquilo era teoria aplicada à sua vida.
Isso aqui? É a teoria aplicada à minha.
Um músculo que fica parado atrofia.
Osso que não sofre impacto quebra fácil.
Corpo que não enfrenta desconforto vira versão frágil de si mesmo.
E mente também.
Então uma corrida às 9h da manhã do dia 25/12, em um sol de 30 graus, faria o quê comigo?
Mostraria pro meu corpo e mente que eu sou movida por desafios. Não por condições ideais.
Enquanto você decidia se ia repetir a rabanada ou ir direto pro pudim, meu córtex pré-frontal recebia recalibração brutal: desconforto não é sinal de parar. É combustível.
Hoje não vou escrever muito.
Quis trazer uma edição extra só pra te lembrar de uma coisa que a neurociência já provou mas todo mundo ignora:
Quando você acha que tá no limite, cansado, ofegante, achando que vai morrer, seu corpo não usou nem 50% da capacidade real.
Isso não é frase motivacional pra você printar e colar no espelho do banheiro.
É descoberta do fisiologista Tim Noakes, que mapeou algo chamado Central Governor Theory. Basicamente: seu cérebro tem regulador central que limita esforço físico muito antes do limite muscular real. É mecanismo de proteção. Trava de segurança que dispara cedo demais.
Por quê?
Porque seu sistema nervoso ainda opera com lógica de savana africana onde gastar energia demais podia significar não ter reserva pra fugir do predador que aparecesse logo depois.
Só que você não mora na savana.
Você mora em apartamento com ar condicionado, geladeira cheia e zero risco de ser comido por leão.
Mas seu cérebro não sabe disso.
Então ele mente. Sistematicamente. Te convence que chegou no limite quando mal arranhou a superfície da capacidade real.
Buscar atrito deliberado é forma de hackear esse regulador central e mostrar pro sistema nervoso: essa trava tá calibrada errada. Podemos muito mais.
Só que a maioria nunca testa isso.
Porque espera condições perfeitas.
Temperatura amena. Nem frio, nem calor, aquele clima de comercial de margarina onde todo mundo sorri e ninguém sua.
Disposição plena. Aquele estado mitológico de energia infinita que só existe em propaganda de suplemento e nunca na sua vida real.
Playlist perfeita. Porque aparentemente é impossível correr sem trilha sonora épica que te faça sentir protagonista de filme de superação.
Companhia garantida. Porque fazer algo sozinho transformou-se em punição social que só gente estranha aceita.
E enquanto espera esse alinhamento planetário improvável acontecer, atrofia.
Confortavelmente.
Silenciosamente.
Irreversivelmente.
Então vai.
Não precisa ser corrida no sol de 30 graus enquanto metade do país digere tender em posição horizontal no sofá.
Pode ser qualquer coisa que teu cérebro tá negociando há semanas com argumentos cada vez mais elaborados:
Aquele livro que você comprou faz 4 meses e leu 11 páginas.
Aquele curso online que tá na aba aberta desde outubro esperando "momento certo" pra começar.
Aquela rotina de exercício que você planejou com perfeição no papel mas nunca testou na prática.
Faz assim mesmo.
No calor. No frio. Sozinho. Sem estar 100%. Com preguiça. Especialmente com preguiça.
Porque crescimento não acontece em condição perfeita.
Acontece apesar da condição.
E principalmente: acontece quando você para de terceirizar decisões pro seu regulador central que foi calibrado pra te manter vivo na savana africana há 200 mil anos, não pra te fazer evoluir em 2024.
Seu cérebro é excelente em sobrevivência.
Péssimo em crescimento.
Feliz Natal.🤶
E até a próxima edição.
Onde eu volto com neurociência pesada, dissecação de viés cognitivo e ferramenta prática pra você aplicar.
Mas hoje era só isso:
Eu pratiquei o que preguei.
Agora é sua vez.
P.S.1: Se você passou o Natal inteiro na horizontal reclamando que calor não combina com movimento, sem problema. Eu também passei horas comendo e conversando besteira. Diferença é que provei pro meu sistema nervoso que desconforto não é comando de parada antes. O resto do dia foi lucro. Mas você faz como quiser. Ou como seu regulador central mandar. Tanto faz.
P.S.2: Se você quer entender a fundo por que seu corpo foi projetado pra prosperar no caos (não no conforto), existem 3 livros que destroem completamente a narrativa de "autocuidado = eliminar estresse":
⭐"Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar" do Daniel Kahneman. Ele ganhou Nobel mapeando como seu cérebro economiza energia te fazendo tomar decisão pelo caminho mais fácil (que geralmente é o pior). Incluindo a decisão de não correr no calor.
⭐"Antifrágil" do Nassim Taleb. Ele cunhou o termo que descreve sistemas que não só resistem ao caos, mas ficam MELHORES com ele. Você provavelmente é antifrágil e não sabe.
⭐"O Jeito Harvard de Ser Feliz" do Shawn Achor. Título brega, conteúdo brutal. Ele mostra como seu cérebro precisa de desafio pra produzir os neurotransmissores que você acha que vêm do Netflix. (Não vêm.)
Três livros. Mesma mensagem: seu corpo foi engenheirado pra crescer sob pressão. Você que tá usando o manual errado.
P.S.3: E olha, se você leu até aqui em vez de voltar pro grupo da família comentando sobre quanto comeu no Natal, você definitivamente conhece pelo menos 2 ou 3 pessoas presas naquele loop de "vou começar segunda" eterno. Aquele amigo que tá há 8 meses "organizando a rotina". Aquela prima que compra curso, marca no calendário e nunca aparece na aula 1. Aquele parente que transformou "respeitar meus limites" em escudo contra qualquer coisa que exija 10 minutos de desconforto.
Copia o link e manda pra eles. Sem contexto. Só joga lá. Se irritarem, ótimo. Filtro funcionando. Se lerem até o fim, você acabou de salvar alguém de virar versão atrofiada de si mesmo enquanto acredita que tá "se cuidando". Me ajuda a estragar o Natal de mais gente com verdades inconvenientes?
Abraço
Cris Andrade
Alquimista do Caos