6h00. Porta da academia abrindo. Eu do outro lado como cachorro esperando a ração.

Gosto desse horário, pois a academia está vazia. Pouca fila pra aparelho, sem influencer fazendo pose no espelho. Sem o cara que deixa 40kg de anilha no leg press e some pra tomar água por 12 minutos.
Só eu e mais umas 6 pessoas, os pesos e aquele silêncio de quem acordou antes do despertador tocar porque tem algo pra fazer.

Alonguei. Primeiro exercício em ação. Fone no ouvido e Podcast de neurociência no volume certo pra eu fingir que não tô num lugar que cheira a suor velho e ambição.

Olhei pro canto onde ficam as duas barras livres… (meus próximos três exercícios moram ali).

Um casal já estava instalado.

Ele: 1,90m de carne compactada, o tipo de corpo que não se constrói, se esculpe, a marteladas, durante anos, com uma dieta que provavelmente não inclui a palavra "pizza" desde 2019. Veias no antebraço grossas como mangueira de jardim. Costas largas o suficiente pra bloquear a luz do sol.

Ela: físico de capa de revista fitness, legging que provavelmente custa mais que meu tênis, celular na mão com a naturalidade de quem já nasceu com ele como extensão do braço.

Os dois ocupando as duas únicas barras livres da academia.

As duas únicas e o o canto que eu precisava.

Ele carregou a barra. Uma anilha… duas... três... quatro de cada lado.
A barra envergou no meio como se pedisse misericórdia. 400kg, talvez mais.
O tipo de peso que faz o chão da academia inteira vibrar quando encosta no apoio.

Ele se posicionou. Respirou. Desceu.

E então veio o som.

Não era gemido. Gemido é o que eu faço quando a Netflix pergunta "você ainda está assistindo?" às 2h da manhã de sábado, já no terceiro sono à frente da tv.
Aquilo era um urro. Gutural, primitivo... do tipo que nossos ancestrais faziam antes de matar um mamute com as mãos.
O tipo que vibra nas paredes, atravessa o fone de ouvido no volume máximo e faz seu sistema límbico pensar que tem um predador no recinto.

UUUURRRGHHH.

A barra subiu. 400kg vencendo a gravidade pelo puro ódio de um homem contra o ferro.

Ela filmando. Agachada, ângulo de baixo. O ângulo que faz a coxa parecer maior, o esforço parecer mais épico, o conteúdo render pelo menos 47 comentários de "monstro 🔥" e "shape absurdo 💪".

Ele desceu de novo. UUUURRRGHHH. Subiu. Ela mudou de posição.
Agora deitada no chão, no chão suado da academia às 6h da manhã.
Sacrifícios que o algoritmo exige.

Eu ali, de pé, com meu fone no ouvido… não queria guerra com ninguém!
Três exercícios esperando… zero espaço disponível.

Pensei: "Eles costumam demorar. Vou fazer outra coisa primeiro."

Fui pra esteira. Quinze minutos de tiros, panturrilha queimando, pulmão reclamando. Voltei.

Eles ainda estavam lá!

Ele agora descansando entre séries, sentado no banco. Olhando pro nada com a intensidade de quem planeja uma guerra.
Ela revisando as filmagens. Provavelmente escolhendo qual urro ficou mais cinematográfico.

Respirei fundo.

A raiva veio e os pensamentos vieram junto com um suspiro longo.
Aquele calorzinho no peito que você conhece. A voz na cabeça: "Puta que pariu. 30 minutos de treino e esses dois vão ficar no mesmo lugar o tempo inteiro? Eu acordo às 5h10 pra isso?"

A raiva e o resmungo ficaram ali por uns 4 segundos. Crescendo, se preparando pra virar indignação completa.

Aí eu me ouvi.

E me achei patética… revirei os olhos pra mim mesma e pensei:

Dois seres humanos treinando… forte... sério. Com dedicação que eu respeito.
Não estão fazendo nada de errado. Não estão no celular fingindo que malham. Não largam peso no chão e somem. Estão só usando o espaço. O mesmo espaço que eu queria. No mesmo horário que eu escolhi.”

E eu ali, prestes a transformar isso em ofensa pessoal. Como se o universo tivesse a obrigação de reorganizar a rotina de duas pessoas pra encaixar no meu treino de terça-feira.

Ridículo.

Pensei: "O que eu controlo aqui?"

Resposta: nada além de mim.

"Qual a solução?"

Olhei pro outro canto. Tinha uma barra livre. Arrastei um banco pra improvisar apoio.
Não era o setup ideal, não era o ângulo certo, mas funcionava.

(Obs. Eu sou perfeccionista e metódica. Então quando eu tenho que mudar a forma, espaço ou a ordem de fazer algo, o botão de autocontrole precisa ser acionado de forma urgente rs.)

Fiz meus exercícios. Todos. Sem urro claro… eu engulo o som, seguro na garganta, porque não gosto de aparecer, sou low profile. Mas compenso nas caretas, isso eu garanto!

47 minutos depois do prazer da academia vazia, terminei. Olhei pra trás.

Ainda estavam lá. No mesmo lugar. Ela ainda filmando. Ele ainda urrando. O chão ainda tremendo.

Nem fiquei puta.

Fiz mais uma caminhada. E fui embora.

Não ache que vai se safar e só ficar rindo da minha cara, que você não viu (mas com certeza imaginou) porque… Você faz isso também.
Não com o casal da academia, com outras coisas.

Com o cliente que demora 3 semanas pra responder um e-mail de 2 linhas.
Com o algoritmo que entrega seu post pra 12 pessoas sendo que você tem 4.000 seguidores.
Com o vizinho. O trânsito. A fila do mercado. O governo. O tempo. O ex…

Você gasta energia construindo raiva contra coisas que não pode mudar.

E aí quando precisa da energia, pra criar, pra resolver, pra fazer o que importa, não tem. Gastou tudo urrando mentalmente contra moinhos de vento.

A pergunta não é se você faz isso.

É com o quê você tá fazendo isso agora. Nessa semana... hoje.

E mais importante: o que você poderia estar construindo com essa energia se parasse?

Aquele projeto que não sai porque você fica remoendo a crítica que alguém fez há 6 meses.
A ideia que não nasce porque você gasta 40 minutos por dia irritado(a) com coisas que vê no feed.
A energia criativa que evapora em reclamações internas sobre pessoas que nem sabem que você existe.

Você não tem déficit de criatividade. Tem vazamento de energia mesmo.

E a maior parte escorre por ralos que você nem percebe que abriu.

Você pode continuar gastando 40 minutos por dia indignado com gente que não sabe nem seu nome.

Ou pode usar esses 40 minutos pra fazer alguma coisa existir.

Em um ano, são 243 horas.

Dá pra escrever um livro. Lançar um projeto. Mudar de vida.

Ou dá pra continuar comentando mentalmente o story dos outros.

Você decide.

(Ou seu cérebro decide e você racionaliza depois. Mas enfim.)

Aliás estou escrevendo um método que vai ajudar justamente nestas escolhas… logo trago ele aqui. Fique atento(a) aos próximos e-mails.

LIVROS PRA IR MAIS FUNDO:

1. Meditações - Marco Aurélio O imperador romano que governou um império em guerra enquanto escrevia sobre controle emocional. O princípio central: "Há coisas que estão sob nosso controle e outras não." Escrito há quase 2.000 anos. Continua atual porque a natureza humana não mudou.

2. Foco - Daniel Goleman O cara que popularizou "inteligência emocional" mostra que atenção funciona como músculo: se não usa, atrofia. Se treina, fortalece. Numa era de distrações infinitas, quem controla onde coloca a mente controla os resultados.

3. Agilidade Emocional - Susan David Psicóloga de Harvard que ensina a lidar com emoções difíceis sem reprimir nem ser controlado por elas. A ideia central: não é sobre ignorar a raiva do casal da academia. É sobre reconhecer, nomear e agir com intenção, não com reação automática.

P.S.: O casal ainda deve estar lá. Urrando. Filmando. Felizes. Nem sabem que quase viraram vilões de uma história na cabeça de alguém. Ainda bem que eu não deixei. Você vai deixar os seus?



Abraços
Cris

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