Eu tinha 13 anos quando descobri que a coisa mais perigosa do mundo (naquela época e idade) não era um palco. Era a frase "vai ter pouca gente".
Foi assim que me convenceram a tocar violão em uma missa de domingo, depois de eu ter aprendido sozinha olhando os dedos dos outros, decorando posições, treinando até os calos endurecerem nas pontas dos dedos…. e depois, claro, de ser obrigada a ir com a minha mãe para a igreja por meses, porque eu e minha irmã brigávamos muito.
Eu era a mais nova, logo, azar o meu.
“Pouca gente”, eles disseram, “coisa tranquila”, eles juraram…
Eu, com a capacidade de discernimento típica de uma pré-adolescente nerd, acreditei. (na mesma época, eu também acreditava que tomar Coca-Cola com Mentos explodia o estômago, então o histórico de credulidade não estava a meu favor.)
Aceitei pela matemática clara do conforto: público pequeno, expectativa baixa, sem risco aparente…
Próximo da hora de começar, fui dar uma olhada no salão. Aquela espiada inocente que a gente dá só pra confirmar que tudo está sob controle.
Coisa que descobri naquele dia: na boca da pessoa que organiza, "pouca gente" é um eufemismo elástico que abriga qualquer coisa entre 3 fiéis devotos e 200 almas curiosas. No meu caso, era a segunda opção.
O salão estava LOTADO. Bancos cheios, gente em pé no fundo… senti o estômago travar, as mãos gelarem e uma vontade súbita de me enfiar em qualquer canto para ninguém me ver.
Eu tinha duas opções: fugir e me reconciliar com a humilhação eterna de ter desistido na hora H, ou subir lá e tocar.
Não tive saída... fui.
Os primeiros três acordes saíram estranhos (os dedos estavam tremendo, óbvio), o coração batia num ritmo que o house brasileiro dos anos 90 invejaria… mas em algum momento entre o segundo e o terceiro verso, alguma coisa aconteceu. A vergonha continuou ali, mas dividiu o palco com a constatação chata e libertadora de que eu tava tocando, e não tinha morrido... que é, francamente, mais do que eu esperava da tarde.
Anos depois eu já tocava em banda, em casas noturnas lotadas fora de Curitiba pra plateias de mais de 4 mil pessoas. Uma vez cheguei a abrir um show da banda Falamansa (quem tem em torno de 40 conhece)… e completamente de boa.
Coisa doida.
Eu não sabia, mas tinha acabado de atravessar aquilo que Alex Hormozi chamaria décadas depois de a primeira parte da tríade do sucesso: dominar a vergonha da rejeição.
A segunda eu aprendi no esporte… sou goleira de futebol 7.
Pra quem nunca jogou, deixa eu explicar a economia perversa dessa posição.
O atacante chuta 10 vezes, mete 2 gols, e vira figurinha rara no álbum.
O goleiro defende 15 bolas impossíveis, toma 1 no canto onde ninguém pegaria nem com Photoshop, e é responsável pela derrota.
Penso que a função foi construída assim de propósito e suspeito que por alguém que detestava goleiros pessoalmente.
Quando eu comecei a jogar mais sério, errar me destruía por dentro porque eu sempre tive uma autocobrança acima do normal e pagava muito caro por isso.
A dor do feedback no esporte é literal. O placar não mente, a torcida tem opinião crítica maldosa, o técnico olha pra baixo e passa milhões de coisas negativas na nossa cabeça em segundos.
Aprendi na marra que autocobrança não me tornava melhor, só mais cansada. E que conviver com o erro de forma natural era, surpreendentemente, a única coisa que funcionava. (Surpreendentemente pra mim, claro, pro resto do mundo já era óbvio há séculos.)
Hoje, com mais de 700 jogos, entendo que o erro faz parte da matemática da posição. Dói menos? Não, dói com mais elegância, que é como adultos descrevem o mesmo sofrimento de antes.
Segunda parte da tríade: dominar a dor do feedback.
