Quando eu saí do serviço público, depois de 14 anos, eu tinha certeza absoluta que ia fazer dinheiro com trading.
(não me julgue, todo mundo já passou por algo parecido rs)
Não suspeita… certeza mesmo (acho que sempre fui muito confiante). Daquelas que vem com plano em planilha, com objetivos por trimestre, com gráficos coloridos que parecem inteligência financeira mas são.
Estudei... fiz curso... operei. Levei um tombo… estudei mais. Levei outro tombo (daqueles em que você acha que aprendeu com o anterior, e o universo prova com pedagogia firme que não).
E em algum momento dessa sequência, percebi a coisa mais óbvia do mundo: trading não era pra mim.
Não era questão de mais estudo, de mais disciplina ou de "ainda não peguei a manha", era estrutural. Meu cérebro funciona de um jeito que não combina com o que aquilo exige (e detesto perder dinheiro com algo que não controlo, isso ajudou).
Então mudei... Estudei pra ser planejadora financeira, porque sempre me interessei na área financeira. Fiz curso, li 18 livros, atuei de verdade na profissão, gostei muito por um tempo. Até chegar naquele ponto em que tudo vira morno... aquele estado onde o trabalho ainda funciona, mas você já não funciona mais com ele.
E mudei de novo.
Mas aí veio algo pior... Não foi outro tombo do trading, nem a saída da empresa de planeamento financeiro, e nem a renda inconstante, foi uma pergunta.
"E aí Cris, o que você tá fazendo agora?"
Toda vez que alguém me perguntava, eu sentia um leve incômodo lá no fundo. Não vergonha exatamente, mas um cansaço antecipado de quem sabe que vai ter que justificar a vida em duas frases pra alguém que já formou opinião antes de perguntar. A pergunta vinha sempre com aquele tom específico, daquele tipo que carrega o julgamento implícito de "essa mulher não consegue parar em lugar nenhum?".
Eu não tinha problema em responder.
"Trading não deu certo... fui ser planejadora... agora tô em outra coisa."
Falava sem dramatizar, sem floreio... porque pra mim era simples. Se uma coisa não tá funcionando, eu mudo. Se a coisa funciona mas não me move mais, eu mudo. Eu não vou ficar fazendo algo que não curto, pra preservar uma narrativa de coerência profissional que eu, sinceramente, nem assinei embaixo.
Só que tem MUITA gente que faz.
E aí eu chego no que eu queria te contar.
