Eram quase 21hs.

Eu já não estava mais sentada na minha cadeira gamer. Eu estava largada nela!
Tipo aquele casaco que você joga no encosto quando chega em casa e fala "ah depois eu guardo"... só que o casaco era eu.

Coluna curvada, em um ângulo que faria qualquer ortopedista chorar de raiva… ombros tão travados que pareciam ter sido parafusados ali de propósito... lombar latejando, mesmo depois de uma hora de academia pela manhã (sim, eu treino e mesmo assim meu corpo tava implorando socorro, o que diz muito sobre o nível de insanidade do resto do dia).

Se existisse um prêmio pra pessoa que mais finge que não escuta o próprio corpo enquanto escreve sobre autocuidado pros outros, eu tava na final.
Disputando comigo mesma.

11 horas na frente da tela... não porque eu tava com preguiça de levantar, mas porque eu tava... produzindo. Analisando concorrência de cliente, construindo posicionamento de marca, ajustando copy, revisando estratégia, respondendo mensagem, planejando conteúdo...

E em algum momento entre a hora 9 e a hora 11, meus olhos pararam de focar direito, começaram a embaçar... mas eu continuei ali, porque parar significaria... o quê, exatamente?
Não sei... acho que nunca parei tempo suficiente pra descobrir.

Aí eu olhei pro relógio do notebook… 20:47.

E pela primeira vez no dia, meu cérebro formulou uma pergunta que não era sobre trabalho:

"Que horas eu parei?"

A resposta veio rápida e patética, como bronca de mãe: eu não parei... em nenhum momento... Em 11 horas, eu não parei uma vez sequer pra fazer nada que não fosse produtivo... (tá, parei 30 min pra comer e lavar a louça e umas poucas vezes pra liberar o líquido acumulado).

E olha, antes que você pense "ah, mas todo mundo trabalha muito", deixa eu te mostrar o nível da coisa.

Eu não abro rede social pra relaxar, abro pra analisar concorrente de cliente.
Eu não assisto curso porque "ah, que legal, quero aprender isso", assisto porque quero ser melhor no que faço.
Eu tenho 24 cursos comprados nas plataformas online esperando pra serem assistidos (vinte e quatro, contei de verdade) e mais uma fila de outros que estou esperando para serem comprados, porque aparentemente meu cérebro entende "descanso" como "estudar algo que ainda não domino".

Meu cérebro confunde tédio com negligência profissional.
Se eu ficar 10 minutos sem absorver informação nova, ele entra em modo alerta como se eu tivesse acabado de ser demitida.

Até a academia, que deveria ser o momento de desligar, virou mais um item de performance. Porque não pode deixar o corpo falhar, né?
A máquina precisa funcionar, o corpo é ferramenta de trabalho.
Se a ferramenta quebra, a produção para.
E se a produção para...

Pânico.

Aí ontem minha terapeuta me soltou uma coisa de uma simplicidade irritante:

"Você precisa relaxar!"

Relaxar… ela falou como se fosse simples.
Como se eu pudesse simplesmente... parar.
Como se existisse um botão de off que eu esqueci onde instalei.
Ou talvez eu tenha vendido ele num kit de produtividade.

Mas eu concordei na hora... porque eu sabia... óbvio que eu sabia!
Eu sou a pessoa que escreve sobre isso toda semana pra vocês.
Eu falo sobre fadiga de decisão, sobre esgotamento cognitivo, sobre como o cérebro precisa de vazio pra funcionar direito... eu cito pesquisas, eu disseco mecanismos neurais. Eu faço diagnósticos cirúrgicos dos padrões alheios enquanto o meu próprio padrão me devora por dentro sem que eu perceba.

E o velho ditado se confirma: casa de ferreiro, espeto de pau. E o espeto tava enfiado na minha lombar.

Eu literalmente ganho a vida explicando pros outros por que eles estão quebrando.
E tô aqui... quebrando… pelo mesmo motivo.
Se isso não é comédia, eu não sei o que é.

Sabe a parte que realmente merece aplausos?

Eu sentei pra escrever essa newsletter e... nada.

Branco total.
Pela primeira vez desde que comecei o Alquimista do Caos, eu não tinha tema.
Não tinha ângulo.
Não tinha aquela fagulha irritante que normalmente me acorda às 3h da manhã com uma ideia que precisa ser escrita antes que evapore.

E fiquei ali, olhando pro cursor piscando (de novo), esperando que alguma coisa surgisse... e nada surgia.

Tentei forçar um pouco, li uns artigos, revisei anotações, abri e fechei uns três documentos. Olhei pro teto... voltei pra tela... e nada.

E aí caiu a ficha, e eu dei risada sozinha na cadeira (aquele riso meio amargo de quem acabou de perceber que é protagonista da própria piada):

Eu sou o tema.
O não ter tema é o tema.
A falta de vazio é o tema.

Porque quando você não dá ao cérebro um segundo de tédio... ele não tem matéria-prima pra criar nada. Ele fica ali, funcionando no modo operacional, automático, processando tarefa atrás de tarefa atrás de tarefa, eficiente como uma máquina... e tão criativo quanto uma.

Tem uma rede neural no seu cérebro que se chama Default Mode Network.
Não precisa decorar o nome (a menos que você queira impressionar alguém num jantar, o que já é um uso questionável do seu tempo). O que precisa entender é isso: essa rede só liga quando você NÃO está fazendo nada.

Não "nada produtivo", nada mesmo.

Olhar pro céu... ficar sentado sem propósito... tomar banho longo sem pensar em lista de tarefas (isso é difícil viu!)... caminhar sem podcast no ouvido.

É nesse estado de aparente inutilidade que seu cérebro faz a mágica que você chama de "ter uma ideia genial do nada".
Aquele insight que aparece no chuveiro? Default Mode Network.
A solução que surge quando você larga o problema e vai fazer outra coisa? Default Mode Network.
A conexão improvável entre duas ideias que não tinham nada a ver? Adivinha...

Só que pra ela funcionar, você precisa de algo que virou artigo de luxo no mundo moderno: tédio.

Tédio virou tão raro que daqui a pouco vai aparecer influencer vendendo "experiência premium de não fazer nada" por R$ 497,90... com certificado (se é que já não tem).

Tédio de verdade, não aquele de fila de banco enquanto scrolla o Instagram... nem tédio de espera no consultório enquanto responde e-mail. Tédio de verdade, do tipo que faz você ficar desconfortável com o silêncio dentro da própria cabeça.

E é exatamente esse desconforto que você evita o dia inteiro.
Cada segundo de vazio preenchido com algo "útil".
Cada pausa transformada em oportunidade de produção.
Cada momento de silêncio assassinado por um estímulo que te faz sentir que está "aproveitando o tempo".

Kalina Christoff, professora de Psicologia da Universidade de British Columbia, passou anos estudando o que acontece quando a mente vagueia, e descobriu que esses momentos de aparente desligamento são quando o cérebro faz suas conexões mais sofisticadas. Tipo as conexões que você precisa pra resolver aquele problema que tá empacado há semanas ou as conexões que geram criatividade... as que fazem você enxergar padrão onde antes só via ruído.

E você (e eu), na obsessão por eficiência, matamos exatamente isso.

Otimizamos tão bem nossa agenda que não sobrou espaço pro cérebro funcionar direito.

A maioria das pessoas nem percebe que faz isso. Acham que estão "sendo produtivas". Que estão "aproveitando o dia". Que "quanto mais, melhor". E continuam empilhando tarefas, cursos, compromissos, estímulos... até o dia que sentam pra fazer algo que exige originalidade e percebem que o poço secou.

E não entendem por quê.

Quem percebeu que algo tá errado mas continua no piloto automático porque "não tenho tempo pra parar"... bom, essa é a versão mais trágica, porque sabe o diagnóstico e escolhe ignorar.
Que é basicamente o que eu fiz… por meses... enquanto escrevia newsletters sobre exatamente isso.
A ironia não é sutil, ela é uma placa de neon rs.

Se você tá aqui, lendo isso num horário que deveria estar descansando (e eu sei que está, porque eu te conheço), você pelo menos tem a honestidade intelectual de admitir que algo precisa mudar.

EXERCÍCIO: AUDITORIA DO VAZIO (60 segundos)

Pensa no seu dia de ontem. Do momento que acordou até a hora que dormiu… e responde pra você mesmo:

Em que momento você não fez absolutamente nada?

Não "descanso produtivo". Não "assisti série". Não "scrollei o celular". Nada. Vazio. Silêncio mental real.

Se a resposta é "nenhum", você já sabe o problema.

Agora: quanto tempo faz que você olhou pro céu sem motivo? Sem tirar foto, sem pensar "que bonito, preciso postar isso". Só olhou... porque sim... porque seus olhos quiseram...

Se você não lembra, seu Default Mode Network também não lembra a última vez que funcionou direito.

Uma última: quando foi a última vez que uma ideia te pegou de surpresa? Tipo do nada, sem você estar tentando ter uma ideia?
Se faz semanas (ou meses), não é bem bloqueio criativo. É mais pra sufocamento cognitivo. Você entupiu cada fresta de silêncio com estímulo e agora reclama que o poço secou.

É como encher a geladeira de comida e reclamar que não cabe mais nada. O problema não é a geladeira.

O exercício só mostra o tamanho do buraco. E às vezes ver o buraco já muda a forma como você pisa.

Eu vou colocar "tédio" na minha agenda, literalmente. Com horário, duração, e tudo. Porque se eu não agendar, eu sei exatamente o que vai acontecer: vou preencher aquele espaço com mais um curso, mais uma análise, mais uma "coisinha rápida" que vira 3 horas.

E daqui a um mês vou estar de volta na cadeira gamer, derretida, sem tema, sem ideia, sem energia... me perguntando por que nada muda.

Eu sei por que nada muda. Agora você também sabe.

Ver o padrão não significa conseguir sair dele.

Mas pelo menos, da próxima vez que você se pegar preenchendo cada segundo do dia com algo "útil"... talvez uma vozinha lá no fundo pergunte: "será que o vazio que eu tô evitando é exatamente o que eu preciso?"

E talvez, só talvez, você deixe a pergunta ficar ali. Sem responder, sem resolver, sem transformar em tarefa.

Só ficar.

P.S.: Se você chegou até aqui sem pausar pra checar notificação, sem abrir outra aba, sem responder mensagem... parabéns. Seu Default Mode Network agradece os 5 minutos de atenção ininterrupta. Provavelmente foi o máximo que ela recebeu na semana. Não se preocupe, a minha também tá no mesmo estado. Somos dois desastres cognitivos lendo sobre desastres cognitivos.

P.S.2: Me conta, responde esse email com 1, 2 ou 3:
1️⃣ Eu literalmente não lembro a última vez que não fiz nada
2️⃣ Eu sei que preciso parar mas não consigo (e fico com culpa quando paro)
3️⃣ Eu já tentei "descansar" e acabei respondendo e-mail do sofá

Quero mapear quantos de vocês estão no mesmo nível de insanidade que eu.


Cris Andrade
Alquimista do Caos

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