Domingo, 12h47. Casa da minha mãe. Cheiro de churrasco invadindo a cozinha enquanto eu finjo que a maionese com pedaços de ovo não está me encarando do outro lado da mesa. Vegetariana em almoço de gaúcho é basicamente exercício de sobrevivência social com sorriso no rosto.

Minha mãe, 73 anos. Síndica do prédio. Jardineira nas horas vagas. Escaladora de telhados nas horas que eu preferia não saber.

Sim. Telhado do prédio. 😧

Descobri mês passado. Quase tive um infarto retroativo.

"Mãe, você subiu no telhado?"

"Tava vazando água da caixa d’água."

"Chama alguém!"

"Pra quê? Eu sei onde tá o problema."

Esse é o nível de teimosia. E antes que você pense que eu sou a filha sensata dessa história: herdei a teimosia dela E do meu pai. Combinadas. Firmware de cabeça-dura que nunca atualiza.

Mas domingo não era sobre telhado.

Era sobre a geladeira.

Minha mãe anunciou, entre uma garfada de arroz e outra, que ia mudar a geladeira de lugar.

Segunda vez que tocava no assunto. Primeira foi há dois meses. Achei que tinha esquecido.

Idosa teimosa não esquece… espera o momento certo de atacar de novo.

"Vou colocar ali, perto da porta."

Olhei pro "ali". Olhei pra cozinha planejada. Armários que iam ter que ser desmontados. Marceneiro. Obra. Poeira. Uma semana de inferno no mínimo.

"Mãe, vai fazer sujeira."

"Eu sei."

"Você odeia sujeira."

"Mas vai ficar melhor depois."

Silêncio.

Ela tinha decidido. Quando minha mãe decide, o universo que se adapte.

Fiquei olhando pro lugar onde a geladeira ia ficar. Tentando visualizar. Parecia errado, estranho. Parecia fora do lugar. Parecia... desnecessário.

E me peguei travada.

Não era minha cozinha. Não era minha geladeira. Não era meu dinheiro. Não era minha sujeira pra limpar.

Mas a ideia de mudar me incomodava.

Logo eu, que me considero flexível. 🙄

Eu, que teoricamente abraço mudanças. 🙄

Eu, olhando pra uma idosa de 73 anos e pensando: "Deixa como tá. Pra quê mexer?"🙄

No caminho de volta pra casa, fiquei mastigando aquilo.

Minha mãe sobe no telhado porque vê um vazamento e quer resolver.

Minha mãe muda a geladeira porque olha pra cozinha de 15 anos e pensa: "E se ficasse melhor?"

Minha mãe vai enfrentar marceneiro, poeira, barulho, uma semana de caos (e vai reclamar de tudo isso, tenho certeza) porque do outro lado tem uma possibilidade de melhoria.

E eu, com menos idade e teoricamente mais energia, olhei pra mesma cena e pensei: "Não mexe no que tá bom."

Cheguei em casa. Sentei no sofá. Olhei em volta.

Quantas "geladeiras" minhas estão no lugar errado porque eu decidi uma vez e nunca mais revisei?

Quantas coisas eu defendo só porque já estão ali, não porque são as melhores ou estão no melhor lugar?

Quantas vezes eu chamei de "estabilidade" o que na verdade é só preguiça de enfrentar a obra?

Minha mãe vai ligar semana que vem reclamando da poeira. Vai dizer que o marceneiro atrasou. Que a cozinha tá um caos. Que ela não aguenta mais.

E quando eu for visitar depois, ela vai apontar pro resultado e falar:

"Viu? Ficou melhor. Eu sabia."

73 anos. Ainda achando que as coisas podem melhorar.

Ainda subindo no telhado.

Ainda movendo geladeiras.

Ainda incomodando o universo com a teimosia de quem se recusa a aceitar que "como está" é o mesmo que "como deveria ser".

Eu tenho menos da metade da idade dela.

E domingo, por um instante, eu era a velha.

Engraçado como a gente se considera flexível.

"Eu abraço mudanças." "Eu me adapto." "Eu não tenho medo do novo."

Aí uma idosa de 73 anos anuncia que vai mudar a geladeira de lugar e você passa o almoço inteiro com a mandíbula levemente travada, torcendo internamente pra ela desistir.

Não porque é ruim pra ela. Porque incomoda você.

Porque reorganiza uma imagem mental que você já tinha arquivado como "resolvida".

Porque exige que você aceite que as coisas podem ser diferentes do que você planejou, e ainda assim ficarem boas. Às vezes melhores.

E isso, por algum motivo, é insuportável.

Semana passada eu escrevi sobre energia desperdiçada. Sobre os ralos invisíveis por onde escorre a criatividade que você jura que não tem.

Essa semana percebi outro ralo.

A resistência silenciosa. A energia que você gasta defendendo o lugar atual das coisas, mesmo quando o lugar atual não é o melhor. Só porque mudar dá trabalho. Só porque obra suja. Só porque e se der errado?

Minha mãe não pergunta "e se der errado?".

Minha mãe pergunta "e se ficar melhor?" e já tá ligando pro marceneiro.

73 anos.

E eu aqui, digitando isso, pensando em quantas geladeiras eu deixei no lugar errado por preguiça de enfrentar poeira. 🤦‍♀️

3 LIVROS PRA QUEM QUER PARAR DE DEFENDER O LUGAR ERRADO:

O Obstáculo É o Caminho - Ryan Holiday Estoicismo mastigado pra quem não tem paciência pra filosofia antiga. A premissa: o que te impede é exatamente o que te move pra frente. A obra de marceneiro que sua mãe vai enfrentar? É o caminho. A mudança que você evita? É o caminho. Minha mãe não leu esse livro, mas vive ele todo dia.

A Coragem de Não Agradar - Ichiro Kishimi e Fumitake Koga Filosofia de Alfred Adler empacotada num diálogo entre um jovem perdido e um filósofo teimoso. O ponto central: você não precisa da aprovação dos outros pra mudar. A geladeira é sua. Move se quiser. 3 milhões de cópias vendidas por gente cansada de viver a vida que os outros esperam.

Se Eu Soubesse aos 20 - Tina Seelig Professora de Stanford que ensina empreendedorismo mostrando que a maioria das "regras" que você segue foram inventadas por gente que não conhece sua vida. A liberdade perturbadora de perceber que você pode reescrever. Inclui a história de alunos que transformaram US$5 em US$650 em duas horas, sem vender nada ilegal.

P.S.: A obra começa terça. Vou cronometrar quanto tempo até a primeira ligação reclamando. Aposto em 48 horas. Mas no fundo, já sei como termina. Termina com ela certa. Sempre termina.

Se você leu até aqui, provavelmente tem uma geladeira própria ou alguma coisa pra mover. Não precisa ser literal. Pode ser a carreira, o projeto, a cidade, a rotina. Qualquer coisa que você defende só porque "sempre foi assim".

Minha mãe não lê essa newsletter. Mas talvez você conheça alguém que precisa de um empurrão pra chamar o marceneiro. Encaminha.

E se ainda não me segue no Instagram, @oficialcrisandrade e @alquimistadocaos.news, É onde eu posto as coisas que não cabem aqui.

Nos vemos semana que vem.



Cris
Alquimista do Caos

Recommended for you