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Tóquio, julho de 2021… Olimpíadas.

Uma mulher de 1,42m de altura se prepara pra saltar. Ela tem 4 ouros na edição anterior, movimentos de ginástica que levam o nome dela e o título informal de melhor atleta da modalidade em toda a história. O mundo inteiro assiste. Os comentaristas já ensaiam os elogios que vão usar daqui a poucos segundos, provavelmente algo como "espetacular" ou "fenomenal" ou qualquer palavra que jornalista esportivo usa quando não sabe mais o que falar.

Ela corre, pisa no trampolim, e o corpo sobe.
E no meio do ar, algo acontece…

O cérebro dela esquece onde é cima, onde é baixo, quando abrir e quando aterrissar. O corpo que treinou milhares de vezes aquele movimento simplesmente... some.
Em um esporte onde você gira a 3 metros do chão, perder a noção de onde você está não é um simples desconforto, mas é risco de quebrar o pescoço em rede nacional.

Simone Biles aterrissa de qualquer jeito, visivelmente abalada, e minutos depois faz o que nenhum comentarista esperava: desiste da competição.

Os ginastas chamam isso de "twisties", um curto-circuito mental onde o corpo sabe mas a mente trava, e que tem o péssimo hábito de aparecer nos piores momentos possíveis (tipo uma final olímpica com 3 bilhões de pessoas assistindo).

A melhor ginasta de todos os tempos foi derrotada pela própria mente.

E eu assisti aquilo da minha sala, de pijama, pensando: "humm eu conheço isso."

Não das Olimpíadas, obviamente.
Minha carreira esportiva foi consideravelmente mais modesta e menos televisionada (o que é um alívio enorme).

Mas eu conheço aquela sensação de ter um corpo que sabe o que fazer, e uma mente que decide, no momento mais inconveniente possível, abrir uma assembleia extraordinária pra discutir todas as minhas falhas de caráter, em pauta única e sem coffee break.

Eu errava, e em vez de seguir em frente, minha cabeça ligava o projetor interno e passava um compilado dos meus piores momentos.
Uma retrospectiva que eu não pedi: "de novo errando isso?", "eles vão te culpar", "olha, já estão te olhando com cara feia", "era só NÃO errar”…

E aí, com essa torcida organizada de vozes internas gritando contra mim, eu voltava pro jogo.

Adivinha o que acontecia?

Errava de novo.
Quanto mais eu dava atenção à isso, menos eu jogava.
O corpo sabia o que fazer, mas a mente tinha decidido que era mais útil ficar repassando o catálogo de evidências de que eu não era suficiente.

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