R$25 mil.

É o que custa um mês quando você decide que sua vida é uma merda.

Spoiler: não foi azar, foi convicção.

Meu personal estava encostado na parede da academia quando cheguei hoje pela manhã. Não encostado de quem descansa entre séries. Encostado de quem não tem mais força pra ficar em pé direito. Encostado de quem já desistiu de fingir que tá tudo bem.

A camiseta que três semanas atrás marcava peitoral agora pendurava nele como roupa de cabide. O tipo de magreza que não vem de dieta. Vem de estômago fechado. De comida que sobe de volta. De mastigar por obrigação e engolir com nojo.

As olheiras não eram roxas. Eram cinzas. Cor de quem dorme 3 horas por noite e passa as outras 6 olhando pro teto esperando o despertador tocar pra ter desculpa pra levantar.

Ele monta meus treinos há alguns anos. Cara inteligente, estudioso. O tipo que lê artigo científico sobre biomecânica por diversão. O tipo que você olha e pensa "esse aí tem a cabeça no lugar".

Pois é. A cabeça no lugar não salvou ele de si mesmo.

Janeiro tinha comido ele vivo.

Três semanas antes…

6:00 AM... academia vazia. Chego e passo pela porta do banheiro e lá esta ele limpando um buraco no cotovelo. Gaze, água oxigenada espumando, sangue seco grudado no pelo do braço.

A moto tinha escorregado numa mancha de óleo na pista.

Ele esfregava o ferimento com uma força que não era sobre limpar. Era sobre punir alguma coisa. O óleo… a prefeitura… o universo… Deus... o vizinho… alguém tinha que pagar. Os dentes travados, a mandíbula dura... cada palavra saía espremida entre maxilares que não queriam abrir.

"Puta que pariu. Logo agora. Logo hoje. Sempre eu."

Sempre eu. Guarda essa frase.

Ele foi embora fazer raio-x. Nada grave... rasgo superficial, pancada no cotovelo que ia sarar em duas semanas.

Mas a cabeça já tinha decidido alguma coisa. A cabeça já tinha escolhido pra onde olhar.

Doze dias depois…

Um motorista furou o sinal e acertou ele em cheio. De novo na moto.

A moto ficou destruída, metal retorcido, plástico estilhaçado, o tanque de combustível amassado igual lata de refrigerante pisada.

Ele teve sorte. Nenhuma fratura, nenhum osso quebrado. Ele poderia ter morrido, ou pelo menos perdido uma perna.

Mas sorte não contava. Sorte não entrava na narrativa. Sorte não combinava com "sempre eu".

O motorista? Uber… sem seguro, sem grana, sem nada. O tipo de pessoa que você processa e ganha o direito de receber zero centavos de um cara que provavelmente já deve até o oxigênio que respira.

Uma semana depois…

Roubaram o carro dele.

Um Gol quadrado... daqueles antigos, branco. O tipo de carro que ladrão nem deveria querer, mas aparentemente em janeiro até bandido estava com preguiça de ser seletivo.

Ele conhecia cada barulho daquele motor. Sabia quando precisava trocar o óleo pelo som. Chamava o carro de "véio". Lavava todo domingo de manhã como se estivesse lavando uma Porshe.

Nunca mais encontraram.

A frase que selou tudo.

Encontrei ele na academia uns dias depois do roubo. Perguntei como ele estava.

A resposta veio automática, ensaiada, como se ele tivesse repetido aquilo cem vezes pra cem pessoas diferentes e já nem precisasse pensar pra falar:

"Tudo uma merda. Homem nasceu pra se ferrar. Quando começa a desandar, não para mais. É sempre assim."

Faltou só a trilha sonora dramática e um close em câmera lenta.

A voz dele não tinha raiva, raiva gasta energia. A voz dele tinha certeza. A certeza cansada de quem já desistiu de lutar porque a luta não faz sentido. Porque o resultado já está escrito. Porque o universo já decidiu e ele só está cumprindo papel de figurante na própria tragédia.

Fiquei ali ouvindo. E pensei: ele não está descrevendo a realidade. Ele está escolhendo qual parte da realidade enxergar… e está construindo o resto.

O vício que ninguém admite...

Seu cérebro prefere estar certo do que estar bem.

Lê de novo… mais devagar.

Seu cérebro prefere confirmar o que você já acredita do que descobrir algo novo. Prefere a dor previsível do que a incerteza de melhorar. Prefere o conforto de "eu sabia" do que o risco de "talvez eu estivesse errado esse tempo todo".

Meu personal não queria que mais coisas dessem errado, é obvio que não... não conscientemente.

Mas cada nova desgraça confirmava a narrativa. E confirmar narrativa libera uma micro dose de satisfação. Imperceptível, quase invisível… mas presente.

"Eu sabia." "Eu avisei." "Tá vendo como eu tinha razão?"

Ter razão é uma droga. Mesmo quando a razão é "minha vida é uma merda".

Parabéns, você venceu o argumento. Prêmio: mais miséria. Troféu entregue diariamente na sua porta.

Ele estava viciado na própria desgraça. E como todo viciado, precisava de doses cada vez maiores pra manter o efeito.

O cérebro dele entrou em modo caça. Caçando evidências de que janeiro era mesmo uma merda, caçando provas de que homem nasceu pra se ferrar, caçando confirmação de que quando começa não para…

Ele escolheu pra onde olhar. E adivinhe o que encontrou?

Tudo que combinava com a história, ele registrava. Tudo que contradizia, deletava.

Provavelmente aconteceram coisas boas em janeiro. Clientes que renovaram, treinos que funcionaram, dias que podiam ter virado memória boa, momentos de sorte, tipo sair vivo de um acidente que deveria ter matado.

Ele não guardou nenhum.

Não cabiam no roteiro. E ele era o diretor, roteirista e ator principal do próprio filme de terror.

Agora a parte chata…

Qual narrativa você defende com unhas e dentes?

"Não consigo emagrecer." "Dinheiro é difícil." "Eu só atraio relacionamento ruim." "Sempre começo e nunca termino." "As pessoas não são confiáveis."

Bonito currículo… impressionante mesmo… dá pra emoldurar e pendurar na parede do fracasso.

Qual dessas você repete tanto que já virou parte de quem você é? Qual dessas você escolhe reforçar todo dia?

Porque aqui está o negócio: você está sempre escolhendo. Cada pensamento que você alimenta é uma escolha. Cada evidência que você coleta é uma escolha. Cada história que você conta sobre si mesmo é uma escolha.

Você pode não controlar o que acontece. Mas controla pra onde olha, controla o que guarda, controla qual versão da realidade vira "a verdade".

E a pergunta que queima:

O que você ganha acreditando na versão ruim?

Parece absurdo... ninguém ganha nada com crença negativa.

Errado.

Você ganha proteção. Se relacionamentos não funcionam, você não precisa se arriscar de verdade em um.

Você ganha desculpa. Se você "sempre começa e nunca termina", a próxima desistência já está justificada antes de acontecer.

Você ganha previsibilidade. Se nada dá certo, você nunca se decepciona, só confirma.

A crença negativa te protege de ter que enfrentar a possibilidade de que você poderia ter sucesso se realmente tentasse.

E aqui está o soco:

Que identidade você teria que matar se as coisas melhorassem?

Se você sempre foi "a pessoa que não tem sorte", quem você seria com sorte?
Se você sempre foi "a pessoa que não consegue", quem você seria conseguindo?

Às vezes a gente sabota o sucesso porque ele exigiria virar outra pessoa.
E virar outra pessoa é admitir que a pessoa que você era precisa mudar.

Dói menos continuar perdendo do que admitir que você poderia ter vencido se tivesse olhado pra outro lado.

P.S.: O contrário também funciona. Decide que vai dar certo e seu cérebro começa a caçar evidências disso. Percebe oportunidades que antes passavam invisíveis. Registra progressos que antes você descartava. Constrói, tijolo por tijolo, outra história. Revolucionário, eu sei. Quase como se você pudesse escolher pra onde olhar. Quase como se você tivesse esse poder esse tempo todo e só não tivesse percebido porque estava ocupado demais colecionando desgraça… imagina.

P.S.2.: Eu adoro meu personal. Se um dia ele ler essa edição, espero que não fique bravo comigo. Mas achei o aprendizado importante demais pra guardar. Janeiro foi foda pra ele. E às vezes a gente precisa de alguém de fora pra enxergar o padrão que a gente não consegue ver de dentro. Torço pra que fevereiro seja o mês que ele escolha olhar pra outro lugar.

3 LIVROS PRA PARAR DE SER ADVOGADO DA PRÓPRIA DESGRAÇA:

O Erro de Descartes - António Damásio Neurocientista português que passou décadas estudando pacientes com lesões cerebrais. A tese que mudou tudo: emoção e razão não são opostas. São inseparáveis. Você não toma decisões ruins porque é "emocional demais". Toma porque não entende como emoção sequestra lógica sem você perceber. Depois de ler, você vai desconfiar de cada "decisão racional" que já tomou.

Incógnito: As Vidas Secretas do Cérebro - David Eagleman Neurocientista de Stanford que escreve como romancista. A premissa: você acha que está no controle, mas a maior parte do que acontece na sua cabeça está fora do seu acesso consciente. Seu cérebro toma decisões, fabrica justificativas, e te entrega o pacote pronto como se você tivesse escolhido. Perturbador do início ao fim.

A Arte de Pensar Claramente - Rolf Dobelli 99 capítulos curtos. Cada um sobre um erro de pensamento diferente. Viés de confirmação é só o começo. Tem falácia do custo afundado, efeito halo, ilusão de controle. Você vai se reconhecer em pelo menos 80% deles. E vai perceber que a maioria das suas "decisões" são padrões automáticos disfarçados de escolha. Pelo menos agora você sabe.

Cris Andrade
Alquimista do Caos

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