This website uses cookies

Read our Privacy policy and Terms of use for more information.

Eu não queria escrever sobre eleição…

Sério!

Não porque política não importe… importa até demais.
O problema é o que o ser humano faz com ela assim que encosta a mão: desfigura, enfeita, transforma em torcida, identidade, briga de família e teste de caráter aplicado nos outros.

Aí eu prefiro ficar quieta… (ou quase).

Domingo eu fui votar a pé.

Saí de casa com aquela disposição cívica mínima de quem sabe que precisa ir, mas não pretende transformar o trajeto numa reflexão sobre a República. Eu ia votar, voltar para casa e seguir a vida.

Plano simples… mas que durou pouco!

No caminho, eu passei em frente a outro colégio onde também estava acontecendo votação. Pessoas entrando, saindo, santinho no chão… aquele movimento meio desorganizado de eleição brasileira, onde todo mundo parece ao mesmo tempo perdido e absolutamente certo de alguma coisa.

Na frente desse colégio tinha uma pista de caminhada e bike. Bem organizada, pintada, com as tartarugas delineando o espaço EXCLUSIVO para pessoas e bicicletas.

E obviamente tinha uma placa: Proibido estacionar.

Nada que exigisse um repertório mental sofisticado para interpretar.
Simples: Proibido estacionar.

Se você observa um pouco de comportamento humano já deve imaginar o que eu vi.
Essa pista estava cheia de carros… não um ou dois… uma quadra inteira.

A pista demarcada pra caminhar, correr, pedalar e lembrar vagamente que o corpo existe tinha virado estacionamento!

Eu parei por dentro, porque a cena tinha uma ironia tão pronta que dava até raiva.

Do lado de dentro do colégio, as pessoas iam votar, escolher representantes, cobrar ética, ordem, respeito ao espaço público e tudo mais.
Do lado de fora, uma quadra inteira já tinha resolvido que a regra mais próxima podia esperar.

E é aqui que a coisa fica boa (boa no sentido ruim, óbvio).
Porque eu duvido que alguém tenha estacionado ali pensando:
“Hoje vou contribuir com uma pequena amostra da degradação moral do país.”

A pessoa provavelmente pensou algo muito mais bonitinho e inocente como:
“Hoje é domingo”, “É eleição”, “Tá muito cheio”, “É rapidinho”, “Não tinha vaga perto”, “Mas todo mundo parou”…

Pronto… a infração ganhou uma nova cor e um nome socialmente aceitável: contexto.

Não é mais erro, é contexto.
Não é mais desrespeito ao espaço comum, é contexto.
Não é mais “eu vi a placa e decidi ignorar”, é contexto…

Inscreva-se para continuar lendo

Este conteúdo é gratuito, mas você deve estar inscrito em Alquimista do Caos para continuar lendo.

Already a subscriber?Sign in.Not now

Reply

Avatar

or to participate

Posts Recomendados

View all
caret-right