A música tocou no carro e minha sobrinha de 13 anos fez aquela careta. A careta de quem abre a geladeira e encontra algo que já foi comida numa encarnação anterior.
"Tia... que música de velho."
Guns N' Roses, "Sweet Child O' Mine", 1987. O solo que eu sei nota por nota desde os 15 anos, quando eu deitava no chão do quarto com o fone furando o ouvido pra ninguém reclamar do volume.
E eu, uma mulher adulta com QI de sobra pra saber que gosto não se discute, comecei ali, parada no farol, a discutir gosto… (🤦♀️) com uma criatura que ainda usa aparelho nos dentes.
Montei a acusação inteira na cabeça: a técnica, a letra que dizia alguma coisa, o detalhe de que a minha música sobreviveu 40 anos enquanto o hit dela não sobrevive 40 dias no Spotify. Sustentação impecável... advogada brilhante do meu próprio umbigo (e, como todo bom advogado, eu já sabia o veredito antes de abrir a boca).
Só que na sustentação impecável tinha um detalhe inconveniente, desses que a gente empurra pra debaixo do tapete da autoestima.
Eu não gosto daquela música porque ela é boa... eu gosto daquela música porque ela tocava no dia em que a vida ainda parecia inteira. Ela não é um som, é um endereço dentro da minha mente.
É o quarto, o chão, os 15 anos, a pessoa que eu era antes de saber tudo o que sei hoje (e antes de descobrir que saber tudo não serve pra quase nada).
O que eu chamo de "bom gosto" é biografia fantasiada de argumento.
E a minha sobrinha faz igual, na direção contrária.
Está gravando o endereço dela agora.
Daqui 30 anos vai defender com unhas, dentes e nostalgia uma música que hoje eu classifico como poluição sonora, e vai olhar de cima pra sobrinha dela, que vai chamar a música dela de coisa de fóssil (😅).
É a roda da vaidade humana: gira, gira, e ninguém desce.
Isso é inofensivo.
Duas gerações brigando por trilha sonora não deixa viúvas.
Guarda essa palavra: inofensivo.
Porque a mesma engrenagem, com uma peça trocada, empilha corpos.
Viena, 1847: quando lavar a mão virou ofensa à honra
Vou trocar de cenário com você. Viena, 1847.
O Hospital Geral tinha duas alas de maternidade, coladas uma na outra.
Na Primeira, os partos eram feitos por médicos e estudantes de medicina.
Na Segunda, por parteiras.
Mesma cidade, mesmo prédio, as mesmas mulheres chegando pra dar à luz e uma diferença que ninguém explicava: na ala dos médicos morriam 18,27% das mães de febre puerperal.
Na das parteiras, 2%.
As mulheres sabiam... imploravam de joelhos pra serem mandadas pras parteiras, porque na ala dos doutores você entrava pra parir e saía num caixão com frequência de aposta ruim.
Um médico chamado Ignaz Semmelweis foi atrás do porquê e achou uma coisa nojenta: os estudantes saíam da sala de autópsia, onde retalhavam cadáveres pela manhã, e iam direto parir bebês… sem lavar as mãos. 🤢
Ninguém lavava, porque em 1847 germe era ficção científica. As parteiras não faziam autópsia, só os médicos carregavam, na própria mão, o que ele chamou de "partículas cadavéricas", da mesa de dissecação pra dentro das mães.
A ficha caiu do pior jeito.
Um amigo dele, Kolletschka, se cortou com o bisturi numa autópsia e morreu com os mesmos sintomas das parturientes.
O germe não perguntou se ele era um cavalheiro respeitável... entrou pelo corte e pronto.
Em 15 de maio de 1847, Semmelweis obrigou todo mundo a lavar as mãos numa solução de cloro antes de tocar uma mãe. A mortalidade despencou de 18,27% pra 1,27%.
Em 2 meses do ano seguinte, nenhuma mulher morreu na ala dele… zero.
Ele tinha a prova na mão… colunas de números gritando que mão limpa é igual a mãe viva.
A reação da classe médica? Indignação.
Porque insinuar que a mão de um doutor podia estar suja era uma afronta à honra da profissão.
Repara no tamanho do ego: um homem que prefere seguir enterrando mães a admitir que talvez, só talvez, precise passar sabão. Um dos colegas chegou a argumentar que as mulheres ficariam a salvo se os homens só parassem de tocá-las (um gênio... resolveu a obstetrícia propondo abolir o obstetra).
A verdade deles, "a mão do doutor é limpa", pesava mais que o fato deles, "a mão do doutor está matando".
Semmelweis virou piada, foi expulso e terminou num hospício, morto aos 47.
As mães seguiram morrendo por décadas.
Não faltava prova, faltava um médico disposto a trocar a própria imagem por uma verdade que arranhava o orgulho.
E aqui mora a diferença entre as duas histórias.
No carro, eu confundi a minha lente com o mundo e não morreu ninguém, porque música não tem verdade universal. Não existe um fato lá fora arbitrando que Guns é superior. Existe a minha biografia e a dela, empatadas. Eu podia estar "errada" o dia inteiro, de graça.
Os médicos confundiram a lente deles com o mundo e mataram milhares. Porque ali existia um fato… invisível, mudo e sem partido. E o fato, diferente da sua tia e do seu chefe, não aceita ser convencido. Não liga pro seu diploma, pro seu argumento afiado nem pra sua honra ferida.
Ele só... acontece.
Você já defendeu "a verdade" com o peito quente e descobriu, tarde, que defendia só o seu ponto de vista com sotaque de fato?
