Sábado, 14h07. Luz de primavera entrando pela veneziana quebrada, (aquela que eu prometi consertar em março e virou piada interna comigo mesma).
Eu deveria estar editando um projeto de cliente. Mas estava abrindo pastas antigas procurando um template. Desculpa esfarrapada pra não começar o que eu deveria começar. Mas aquela desculpa produtiva, sabe rs? Das que você conta pra si mesma e quase acredita.
Pasta: "Projetos". Subpasta: "Livros". Subpasta: "Algum dia".
"Algum dia."
Eu ri sozinha... daquele jeito que não tem graça nenhuma mas você ri assim mesmo porque chorar dá trabalho.
18 documentos. Nomeados com a criatividade de quem já sabe que não vai voltar: "ebook_v1", "livro_comportamento_FINAL", "estrutura_cap1a5_rascunho".
Tem um chamado "ESSE VAI" em caixa alta. Spoiler: não foi, obviamente!
O mais velho: 12 de abril de 2019. Criado às 16:23. Eu lembro vagamente do dia. Tinha acabado de sair de um banho de quase uma hora porque tava puta da cara com alguma situação e não queria admitir que ia explodir. Terapia é cara demais, chuveiro é de graça. Prioridades.
O vapor ainda embaçava o espelho quando a ideia veio.
Um livro sobre performance esportiva (eu sou atleta para quem não sabe).
Não o tipo que coloca 'bestseller' na capa antes de vender 12 cópias pra família, que trata o leitor como se ele tivesse acabado de acordar do coma.
A versão real. Com neurociência, com exemplos que incomodam e com a honestidade que os outros autores evitam porque têm medo de perder seguidores. (Deus me livre alguém discordar nos comentários.)
Eu já tinha o título. Já tinha os capítulos. Já via a capa na minha cabeça. Já tinha ensaiado mentalmente a entrevista pro podcast que ninguém me convidou ainda.
Sentei na cama, toalha ainda no cabelo e a água molhando a camiseta. Escrevi por duas horas sem parar. Estrutura, capítulo 1 inteiro, metade do 2…
Os dedos não acompanhavam o cérebro. Aquele estado que quem já criou algo de verdade conhece: quando a coisa quer nascer e você é só o canal tentando não atrapalhar.
Terminei o esboço. Li do começo. Arrepio na nuca desceu até a base da coluna.
"Caramba, isso ficou muito bom."
Salvei. Fechei. Fui comer.
E nunca mais abri.
Por cinco anos. O suficiente pra um ser humano aprender a andar, falar e perguntar "por quê?" 400 vezes por dia. Eu aprendi a fingir que aquela pasta não existia.
Terça, 14h. Clique duplo no arquivo.
O Word demorou pra abrir. Documento velho. Desde 2019, troquei de computador duas vezes, de sistema operacional três, de desculpa umas quinhentas.
Algumas formatações tinham bugado. Os itálicos viraram caixas de erro. Metade das aspas eram símbolos alienígenas. O documento parecia tão abandonado quanto eu me senti lendo ele.
Li assim mesmo.
Meu maxilar travou no terceiro parágrafo do capítulo 1.
Era bom, pensei com uma cara de expectativa.
Não "bom pra época". Não "bom considerando que era rascunho". Bom de verdade. Bom o suficiente pra eu querer voltar no tempo e dar um tapa na cara na minha versão de 2019 que achou que "esperar o momento certo" era estratégia e não eu mentindo pra mim mesma em terceira pessoa.
E então veio o pensamento... aquele que eu passei cinco anos sufocando com Netflix, rolagem infinita, e projetos de clientes que pagavam pouco mas mantinham a ilusão de que eu tava "ocupada demais" pra escrever meu próprio livro.
"Se eu tivesse continuado naquele dia, o livro já existiria."
1.847 dias. Se eu tivesse escrito meia página por dia, (meia página, menos que um story de Instagram reclamando de falta de tempo) seriam 923 páginas. Três livros no mínimo.
Em vez disso, eu tenho um documento de Word com formatação de hieróglifo e a memória exata do vapor no espelho do banheiro naquele abril.
Minha lombar encostou no fundo da cadeira. Ombros desceram. O corpo reconhecendo a derrota antes de eu admitir em palavras. Ele sempre sabe primeiro! E isso é irritante.
O cérebro não esquece o que você deixou incompleto. Seria bom demais se esquecesse.
Bluma Zeigarnik descobriu isso nos anos 1920: tarefas inacabadas ficam ativas na mente. Rodando em segundo plano. Consumindo energia que você nem percebe.
Como aquelas 47 abas do Chrome que você jura que vai ler "depois" e ficam lá, sugando bateria e julgando suas escolhas em silêncio.
Cada esboço abandonado é uma aba aberta no teu sistema.
Você está no sofá. Domingo. Feed no automático. Modo zumbi ativado. E do nada para numa postagem de alguém lançando algo parecido com a sua ideia… o tema é parecido. Parecido o suficiente pra tua mandíbula travar por 0.3 segundos. Parecido o suficiente pra você sentir aquele embrulho no estômago que não é fome mas você vai fingir que é e comer alguma coisa de qualquer jeito.
Você continua rolando. Dá like. Comenta "parabéns!!" com dois pontos de exclamação pra parecer entusiasmada. E tenta esquecer que aquela poderia ser você.
Seu corpo não esquece.
Ele nunca esquece.
Mas o dano real não é o projeto que não existe.
É o que acontece com a tua identidade cada vez que você promete algo pra si mesmo e não cumpre.
Cada esboço iniciado e abandonado ensina pro teu cérebro um dado: "Somos do tipo que não termina."
Ele aprende rápido. Diferente de você, que ainda “está se organizando” pra aprender inglês desde 2016.
Na próxima ideia, o arrepio vem mais fraco. Na seguinte, quase não vem. E um dia você percebe que parou de ter ideias. Não porque secou. Porque teu sistema aprendeu que não adianta ter. Você não vai fazer nada com elas mesmo. Então pra quê o trabalho de criar?
18 arquivos na pasta "Algum dia" não são 18 livros potenciais.
São 18 provas de que tua palavra contigo mesma vale menos que promessa de político em outubro.

Sentei olhando pro documento aberto. Cursor piscando no fim do capítulo 2 incompleto. Exatamente onde eu parei em 2019. Piscando. Piscando. Como se perguntasse: "E aí? Mais cinco anos?"
E finalmente entendi por que eu tinha fechado.
Não era falta de tempo. Eu tinha tempo. Gastei em temporada de série que nem lembro o nome mas na época parecia urgente assistir.
Não era falta de capacidade. Eu sabia escrever. Não perfeitamente, mas o suficiente pra começar. Melhor que metade dos livros que eu critico em reviews mentais que nunca publico.
Era medo de que funcionasse.
Minha respiração travou no peito quando pensei isso. Mãos pararam em cima do teclado sem tocar em nada. Aquele momento de lucidez horrível que você deseja poder desver.
Porque se o livro funcionasse, eu ia ter que virar a pessoa que escreveu o livro. E essa pessoa não é a mesma que coleciona esboços como troféu de potencial desperdiçado. Não é a mesma que reclama de "falta de tempo" enquanto assiste vídeos aleatórios, porém úteis, no Youtube. Não é a mesma que prefere o conforto de "um dia eu termino" do que o terror de terminar e descobrir que talvez não seja tão boa quanto o potencial prometia.
Fracasso é confortável. Você continua igual. Ganha uma história pra contar… "Tentei escrever um livro, mas não rolou." As pessoas até admiram: "Nossa, que corajosa de tentar." Você ganha ponto social sem entregar nada.
Mas terminar? Publicar? Colocar seu nome numa capa e entregar pro mundo avaliar?
Isso exige um funeral… da pessoa que você era.
Sem velório, sem flores, sem ninguém te dando parabéns por ter assassinado tua versão covarde.
Você acorda no dia seguinte e ela não existe mais. E o pior: ninguém percebe. Só você. Sozinha com a autora que se tornou, sem garantia de que vai aguentar ser ela. Sem garantia de que o livro vai vender. Sem garantia de nada além da certeza de que agora não tem mais como fingir que "ainda vai fazer".
Eu olhei pro espelho do escritório. Mesmo rosto de 2019. Um pouco mais velha. Mesmos olhos. Menos desculpas sobrando.
Isso apavora mais que qualquer fracasso.
Por isso a gaveta.
Por isso "algum dia".
Por isso cinco anos.
O documento ainda está aberto aqui.
O Word perguntou se eu quero salvar alterações. Não fiz nenhuma. Só li. Mas ele pergunta assim mesmo. Talvez ele saiba algo que eu ainda não admiti.
O livro não me odeia. Seria mais fácil se odiasse. Raiva eu sei lidar. Aprendi em terapia. (Quando tinha dinheiro pra terapia.)
Ele só espera. Com a paciência de quem não tem pressa. De quem sabe que eu vou abrir esse arquivo de novo daqui a seis meses, sentir o mesmo aperto no peito, e fechar de novo. Talvez murmurar "agora vai" pra me sentir melhor. Não vai… mas o ritual conforta.
A menos que dessa vez seja diferente.
Mas provavelmente não vai ser.
Geralmente não é.
INVENTÁRIO DE CADÁVERES
Abre tua pasta de projetos agora.
Não depois de terminar de ler. Agora… vai lá e abre!
Encontra o esboço mais velho. O livro, o ebook, o negócio... o que for.
Abre.
Lê as três primeiras linhas.
Pronto.
Agora você não pode mais fingir que esqueceu. De nada.
Agora, uma pergunta:
O que em você precisa morrer pra esse projeto finalmente nascer?
Não responde rápido. Senta com isso. Deixa incomodar. Resiste à tentação de ir checar notificação.
A resposta que vier fácil é defesa.
A resposta que doer é provavelmente a que você precisa dar atenção.
A diferença entre você e a maioria é que você ainda sente alguma coisa lendo isso.
Eles já anestesiaram. Renomearam a pasta de "Ideias" pra "Arquivo morto" e seguiram em frente. Chamam cemitério de esboços de "processo criativo" e dormem oito horas por noite sem problema. Alguns até postam sobre produtividade no LinkedIn.
Você ainda sente.
Não sei se isso é bom ou ruim.
Só sei que é raro.
Usa enquanto dói.
P.S.1: Tua ideias de 2019 não vai te cobrar. Não vai reclamar. Não vai fazer drama. Ela só vai aparecer de novo, na próxima vez que você vir alguém lançando algo sobre um tema que você pensou primeiro. Aí você vai lembrar desse e-mail. E o peito vai apertar um pouco mais forte. E você vai pensar: "Eu podia ter começado naquele sábado." E vai ter razão. Mas pelo menos você vai ter esse e-mail pra te lembrar que você sabia. Sempre soube.
P.S.2: Agora compartilha essa edição com quem você acha que tem um monte de ideias na gaveta ou nas pastas do PC. Me ajuda a deixar mais gente desconfortável com o potencial que não virou potência!
Ah, e se você decidiu tirar alguma ideia da gaveta, responde este e-mail e me conta. Eu vou ler!!!
Abraço,
Cris Andrade
Alquimista do Caos