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A terceira latinha de energético ainda estava gelada na minha mão. Não abri. Segurava só pra ter algo pra apertar enquanto a tela do computador me encarava de volta.

Quinze abas abertas. Slack vomitando notificações. Um documento em branco esperando virar cinco e-mails de vendas. E no canto do monitor, um post-it amarelo com a lista do dia escrita em letra cada vez menor conforme os itens foram se acumulando:

5 emails. 10 copys de Instagram com legendas. 2 roteiros de Reels. Análise de métricas. Relatório de concorrência. Call com cliente às 16h. Responder os 47 áudios do WhatsApp que o dono da empresa mandou entre meia-noite e sete da manhã porque ele "teve umas ideias".

Isso era um cliente.

Eu tinha dez.

Meu peito fazia aquele negócio estranho. Não dor, exatamente. Mais como se alguém tivesse colocado um tijolo em cima do esterno e esquecido de tirar. O maxilar travado naquela posição que depois você descobre que é bruxismo e precisa de placa.

A respiração curta que você nem percebe que está fazendo até alguém perguntar "você tá bem?" e você não saber responder.

O cursor piscava.

Eu precisava escrever um e-mail que fizesse alguém abrir a carteira. Tinha 30 minutos. Trinta minutos pra escolher palavras que justificassem toda a operação de marketing daquele cliente.

Mas minha cabeça não estava nas palavras.

Minha cabeça estava no áudio que eu ainda não tinha ouvido, na planilha que eu ainda não tinha atualizado, no cliente anterior que tinha mandado "precisamos conversar" sem contexto nenhum (a frase que deveria ser crime por dano psicológico), e na certeza crescente de que não importava o quanto eu corresse, a lista ia continuar crescendo mais rápido que minha capacidade de riscar itens.

A latinha esquentou na minha mão.

O cursor continuou piscando.

E em algum lugar entre a costela e o estômago, algo começou a rachar.

O número que parece bom até você fazer a conta de verdade

R$3.500 por mês. Era o quanto eu recebia.

"Ah, Cris, mas é um bom salário."

É?

Vamos fazer a conta que ninguém faz.

176 horas mensais no papel. Na prática, umas 220 porque "o cliente precisa disso pra ontem" não respeita legislação trabalhista e nem o seu sistema nervoso.

Dez clientes na carteira. Cada um operando na ilusão adorável de que eu acordava pensando exclusivamente na marca dele. Cada um esperando que a mesma pessoa fosse copywriter, social media, gestor de tráfego, analista de dados, estrategista, designer na emergência, e terapeuta emocional quando o lançamento não batia meta.

R$3.500 dividido por 260 horas reais dá R$15,91 por hora.

Uber em horário de pico paga mais.

Só que o motorista desliga o app quando cansa.

Eu recebia mensagem às 23h de domingo perguntando se dava pra "dar uma olhada rapidinho" num texto. Rapidinho. Como se existisse rapidinho quando você é a pessoa responsável por transformar palavra em dinheiro pro negócio dos outros.

E o pior não era a mensagem.

Era que eu respondia "claro, já vejo".

Sempre respondia.

Porque eu estava tolerando.

A mecânica invisível da coisa que te destrói

Tolerância não anuncia chegada.

Não manda convite formal. Não pede assinatura reconhecida em cartório. Não diz "a partir de hoje você vai aceitar coisas que te corroem por dentro em troca de uma ilusão de estabilidade".

Ela entra silenciosa. Pela porta dos fundos. Um dia de cada vez.

Primeiro você tolera a hora extra não remunerada. "É só essa semana."

Depois tolera o cliente que manda áudio de 4 minutos às 23h como se você fosse plantonista de pronto-socorro. "Faz parte do trabalho."

Depois tolera a ansiedade que agora precisa de remédio pra você conseguir dormir. "Vai passar quando a fase aperreada acabar."

Depois tolera acordar com o peito pesado domingo à noite porque segunda-feira vem chegando como caminhão desgovernado. "Todo mundo sente isso."

E o mais perverso: seu corpo grita mas sua mente racionaliza.
Você já sentiu algo parecido em alguma área da sua vida?

O ombro trava. "Preciso fazer alongamento."

A gastrite volta. "Deve ser o energético."

O sono desregula. "Vou tentar melatonina."

Você trata sintoma. Ignora causa. E continua arrastando o tijolo no peito como se fosse acessório obrigatório da vida adulta.

"É assim mesmo."

"Pelo menos é estável."

"Quando eu tiver mais experiência, melhora."

Estável. A palavra favorita de quem está silenciosamente apodrecendo enquanto paga boleto em dia e posta foto de almoço no stories como se tivesse tudo sob controle.
(Aliás já comecei a escrever o ebook que mostra que estabilidade não existe. Em breve trago novidades).

O dia que a tolerância ganhou nome

Não foi epifania cinematográfica.

Não teve trilha sonora épica nem raio de luz entrando pela janela.

Foi mais parecido com aquele estalo que acontece quando você está explicando sua rotina pra alguém e, no meio da frase, percebe o absurdo do que está saindo da sua boca.

Eu estava olhando pro documento em branco, cursor piscando, 27 minutos restantes, quando uma frase apareceu com clareza nojenta:

“Eu sou paga pra fazer mágica. Me dão um palito de fósforo molhado e perguntam cadê o fogo.”

Pronto.

A tolerância ganhou nome.

Não era o salário. Não era o cliente específico. Não era nem a agência em si.

Era a impossibilidade estrutural de fazer um trabalho bom.

Eu estava sendo paga pra escrever e gerar dinheiro pros clientes. Mas o sistema não permitia que eu escrevesse direito. E se eu não escrevia direito, o dinheiro que eu deveria estar gerando escorria pelo ralo junto com minha sanidade.

Eu era contratada pra uma função. Impedida de executar essa função. E ainda assim cobrada pelos resultados que o próprio sistema tornava impossíveis.

E o pior: eu assinava embaixo. Cada "ok, consigo entregar". Cada "deixa comigo". Cada vez que eu fingia que 30 minutos era tempo suficiente pra criar algo que merecesse a atenção de um ser humano.

A tolerância era minha.

O contrato invisível tinha minha assinatura..

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