Puxei a tela do app do banco pra baixo pela sétima vez naquela manhã, esperando o saldo mudar. O dedo arrastando pra atualizar no automático, como quem cutuca um dente que dói. O Pix não tinha caído... de novo.
Não era o dinheiro... 8 dias de atraso em um boleto não iam me quebrar, e eu dormia bem, obrigada.
Era mais besta que isso: tinha uma peça fora do lugar no meu sistema, e eu não sossego enquanto a peça não aparece. Quando me dizem "pago dia 26", pra mim dia 26 às 10:00 da manhã o dinheiro deveria estar lá... é lei. E aquela pessoa rasgou a minha lei sem nem avisar.
O que eu não via, arrastando a tela, é que a minha cabeça já tinha largado o Pix e estava fazendo coisa bem mais interessante: escrevendo um filme. Vou reconstruir ele passo a passo, porque o assustador é que nenhum passo, sozinho, parece loucura.
Começou manso, "Deve ter esquecido”… todo mundo esquece um boletinho de vez em quando.
No segundo dia, a minha cabeça já não aceitava esquecimento.
Não é possível que ela não esteja gostando do trabalho, o engajamento tinha subido 1238,6% em menos de 2 meses, o conteúdo tava afiado, os números todos positivos e altos...
Se estava tudo funcionando e ela não pagou ainda, então tinha um problema escondido. Repara: minha mente já tinha decidido que existia um problema, só faltava inventar ele... e aí ela não economizou.
Primeiro veio a energia.... isso mesmo, rs. Fiquei pensando "ela tem energia masculina alta", então precisa estar no controle, precisa fazer parte de certas decisões... logo, segurar o pagamento podia ser uma demonstração de controle.
Uma tese interessante sobre a personalidade dela, montada numa tarde, só pra eu não ter que mandar um "oi, tudo certo com o pagamento?".
No dia seguinte a energia masculina me pareceu pouco e a coisa escalou sozinha. "Hummm, isso é padrão daquele tipo de cliente que dá trabalho…." Pronto, em um atraso de boleto e sem trocar uma palavra com ela, eu já tinha arquivado a mulher inteira numa gaveta, com etiqueta e tudo. Repara: eu já não inventava um motivo, inventava uma pessoa inteira pra caber no motivo.
Duas teorias e uma semana inteira.
E não passou pela minha cabeça, nenhuma vez, a possibilidade mais simples: que eu não sabia, que o silêncio dela não era recado escondido pra eu decifrar e que talvez nem fosse sobre mim.
