$40.000 dólares por ano.

Era isso que um porteiro custava para um hotel cinco estrelas. Um cara de uniforme que ficava na entrada abrindo porta, sorrindo pra hóspede e falando "bom dia" com aquele tom ensaiado de quem nasceu pra servir.

O dono do hotel precisando cortar custois, fez o que qualquer empresário "eficiente" faria... chamou uma consultoria pra resolver o problema. Porque é isso que a gente faz quando quer parecer inteligente sem ter que pensar muito: paga alguém de terno pra pensar por nós e depois culpa o consultor se der merda (e sempre dá).

Ok, o consultor chegou, passeou pelo lobby com aquele olhar analítico de quem caça problemas… anotou uns números no tablet, e apontou pro porteiro como quem aponta pra uma mancha no tapete.

"Esse aí é custo desnecessário. Instala uma porta automática e você economiza quarenta mil por ano."

O dono do hotel, que entendia muito bem o que acontecia da porta pra dentro, concordou. Fazia sentido… os números faziam sentido…. a planilha não mentia... e planilhas nunca mentem, né? Elas só omitem tudo que não cabe em célula, mas isso é detalhe. (tem um livro chamado Como Mentir com Estatística, que se você tiver curiosidade pode ler).

O porteiro foi demitido numa sexta-feira. Provavelmente descobriu por e-mail, porque hoje em dia é assim que alguns chefes comunicam que alguém virou custo desnecessário. Na segunda-feira a porta automática já estava instalada. Moderna, silenciosa e eficiente. Abria quando alguém chegava perto, fechava quando se afastava. Zero salário, zero encargos, zero férias e zero opinião.

O consultor pegou o seu pix gordo e foi embora pra aplicar a mesma fórmula genial no próximo cliente.

E durante algum tempo... tudo parecia estar funcionando perfeitamente.

Até que os hóspedes começaram a reclamar.

Não da porta, pois ela funcionava que era uma beleza. Abria, fechava, abria, fechava. Tecnologia de ponta, eficiência máxima.
Dava até pra colocar no Instagram do hotel como case de inovação.

Eles reclamavam de outras coisas.

Que não havia mais ninguém pra chamar táxi quando chovia.
Que as malas ficavam largadas na entrada esperando alguém aparecer.
Que ninguém sabia recomendar um restaurante bom perto dali.
Que a sensação de chegar no hotel tinha mudado... ficou fria, impessoal, parecendo aeroporto ou uma repartição pública em dia de chuva.

E aí alguém finalmente teve a brilhante ideia de perguntar: o que mais o porteiro fazia além de abrir a porta?

A lista foi constrangedora.

Ele fazia segurança informal, ficava de olho em quem entrava e saía... conhecia os hóspedes frequentes pelo nome, não pelo número do quarto... carregava mala de senhora idosa sem ninguém pedir... guardava pacote de entrega... acalmava criança perdida enquanto os pais resolviam o check-in... dava direção pra turista confuso que não sabia usar Google Maps... e flertava educadamente com as velhinhas ricas que voltavam todo ano, em parte porque ele lembrava o nome do cachorro delas e perguntava como o Frederico estava (sempre se chamam Frederico, não me pergunte por quê).

O porteiro fazia vinte coisas invisíveis que ninguém lembrou de colocar na planilha quando decidiram que ele era "custo desnecessário".

A porta automática faz duas:
Abre e fecha.

E o hotel, que economizou $40.000 por ano em salário, começou a perder hóspedes que gastavam 10 vezes isso em diárias e champanhe no quarto.

A eficiência da planilha se transformou em burrice no mundo real.

Essa história é contada por Rory Sutherland, um publicitário britânico que cobra milhões pra explicar pras empresas por que elas tomam decisões idiotas achando que estão sendo estratégicas. O cara é meio que um tradutor de burrice corporativa... transforma em conceito acadêmico o que qualquer pessoa com bom senso já sabia, mas que executivo só leva a sério se vier num relatório caro.

Ele criou um conceito por conta desta história que eu nunca mais esqueci: a falácia do porteiro.

A gente olha pra alguma coisa, enxerga só a função óbvia dela, calcula o custo visível e decide cortar porque "não compensa". Sem perceber que embaixo da superfície tem 20 outras funções que a gente nem sabia que existiam... até elas desaparecerem e tudo começar a desmoronar de um jeito que ninguém consegue explicar na reunião de resultados.

O dono olhou pro porteiro e viu um cara que abre portas.

Não viu o cara que fazia o hotel parecer um lugar onde você é gente de verdade, não só um número de reserva.

Cortaram o visível e por consequência, destruíram o invisível. E depois, claro, contrataram outra consultoria pra entender por que a porta automática de última geração não resolvia o problema.

Agora… você já reparou como tá difícil pensar de forma clara hoje em dia?

Não tô falando de cansaço não.
Tô falando daquela sensação que eu vejo em todo mundo de ler uma página inteira e chegar no final sem lembrar o que leu.
De começar uma frase falando e esquecer onde queria chegar no meio do caminho.
De ter uma ideia e ela evaporar antes de conseguir segurar ou anotar…

As pessoas abrem o Google pra pesquisar algo, veem uma notificação, clicam e quinze minutos depois não fazem ideia do que foram pesquisar e percebem 7 abas abertas. E ainda se perguntam por que andam tão "distraídas" ultimamente... (muitos vão dizer que é TDAH… mas na maioria das vezes não é… também não é distração apenas, é que o cérebro desaprendeu a sustentar um pensamento por mais de 30 segundos porque virou porta automática).

As ideias parecem mais rasas do que eram há uns anos.
Aquela capacidade de conectar coisas, de ter insight do nada no banho, de resolver problema sem precisar perguntar pro ChatGPT primeiro... sumiu em muita gente.
Ou pelo menos tá bem mais fraca do que qualquer um gostaria de admitir.

E sabe o que é mais irônico?

A galera automatizou exatamente o que fazia o cérebro funcionar.

Terceirizou a escrita, porque "IA faz mais rápido e melhor".
Terceirizou o planejamento, porque "tem app pra isso, organiza tudo sozinho".
Terceirizou até a reflexão, porque "não tenho tempo pra ficar pensando, preciso executar".

E agora reclama que o cérebro tá lento, que não consegue mais focar, que vive no piloto automático... como se fosse mistério. Como se não tivesse relação nenhuma com o fato de ter demitido todos os porteiros da mente e colocado portas automáticas no lugar deles.

Não que automatizar e otimizar sejam coisas ruins, claro que não, porém…

O porteiro era o atrito, o processo e a lentidão necessária pra digerir informação e transformar em algo seu, não do algoritmo.

A porta automática só abre e fecha. Rápido, eficiente e completamente incapaz de gerar uma ideia original ou ajudar a entender o que a pessoa tá sentindo.

Quiseram ganhar tempo e perderam a capacidade de usar esse tempo pra alguma coisa que preste.

O Sutherland conta uma outra história de uma escritora australiana que foi questionada por um cirurgião sobre por que ela ainda escrevia à mão.

"É muito mais lento. Computador é mais eficiente."

E ela respondeu algo que eu guardo até hoje: "Mas esse é o trabalho da minha vida. Eu não tenho pressa com ele."

Eu fico pensando quantas coisas a gente faz correndo que deveriam ser feitas devagar. Quantos processos a gente pula porque demora demais.
Quantas capacidades a gente perde porque decide que o atalho é mais inteligente.

Eficiência virou a religião da nossa geração.
Se não é rápido, tá errado.
Se não dá pra medir, não vale.
Se não escala, é perda de tempo.

Só que algumas coisas não foram feitas pra escalar. Foram feitas pra manter a gente humano (e nosso cérebro em evolução).

A escrita à mão, por exemplo, nunca foi sobre produzir texto.
É sobre o pensamento que a pessoa é obrigada a ter quando senta, para, e tenta colocar em palavras o que tá sentindo.
É sobre processar a própria experiência em vez de só passar por ela correndo.

(há algumas edições atrás eu lancei um desafio justamente para isso, voltar a pensar de forma eficiente. Se quiser dar uma olhada tá aqui.)

Muita gente automatizou isso também. E agora se pergunta por que se sente desconectada de si mesma... como se fosse culpa do mundo, do trabalho, da vida corrida.

Mas não é.

É que demitiram o porteiro. E agora só tem a porta automática.

Abre e fecha… funciona perfeitamente.

E não sente nada.
Não processa nada.
E não cria nada!

Antes de automatizar a próxima coisa da sua vida porque "demora demais" ou "dá pra fazer mais rápido"... para um segundo.

Olha embaixo da superfície.

Se pergunta o que mais aquilo faz que não aparece na planilha.
Que capacidades invisíveis estão sendo exercitadas enquanto você faz aquilo do jeito lento, ineficiente e humano.

Porque tem coisas que quando você corta, não voltam.

E aí a pessoa passa o resto da vida tentando entender por que se sente mais lenta, mais rasa, menos capaz de ter uma ideia própria... sem perceber que foi ela mesma que demitiu quem fazia o trabalho pesado.

O porteiro nunca foi só a porta.

E você nunca foi só produtividade.

Pelo menos não era.

P.S. Responde esse e-mail e me conta... o que você já automatizou achando que ia ganhar tempo e agora percebe que perdeu junto uma capacidade que não volta fácil? (escrever para outra pessoa ajuda na reflexão ehhe).

Cris Andrade
Alquimista do Caos

Reply

Avatar

or to participate

Recommended for you