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Eu consigo prever o futuro, mas só em um assunto. O almoço de quinta que vem na casa dos meus pais vai ser arroz, feijão, uma carne e alface com tomate. O de sexta também. O da quinta seguinte, idem. Não é dom, é estatística: meu pai tem 74 anos e repete a mesma arquitetura de prato de segunda a sexta, e eu sei disso desde que aprendi a segurar um garfo.

Não é falta de opção. A geladeira está cheia. É gosto, e ele defende o dele com uma frase que me derrubou da cadeira: "não gosto disso". Sobre comidas que ele nunca colocou na boca na vida.

Guarda essa frase, vamos precisar dela.

Passei os dias seguintes reparando em tudo, com a delicadeza de um perito criminal na casa dos próprios pais🤦‍♀️. Minha mãe come a mesma coisa toda manhã... e a mesma coisa todo fim de tarde... sábado e domingo inclusos, porque o cardápio dela não tira folga. Os dois sentam nas mesmas cadeiras, mesmos programas de tv, mesmo horário, mesmo comentário…. e tudo bem, é a escolha deles.

Eu, a filha observadora, especialista em enxergar padrão na vida alheia, fiz o que qualquer pessoa esclarecida faria: achei aquilo tudo muito fofo... mas fiquei ali pensando no tamanho do mundo. Países inteiros construídos em cima de comida que eles nunca vão provar.

E o cérebro humano (essa máquina cara), escolhendo arroz com feijão de novo pra poupar energia.

O desvio de dois minutos que eu faço há alguns anos

No caminho de volta, parada num semáforo, me dei conta de uma coisa boba: eu estava na mesma rua de sempre, fazendo o mesmo caminho de sempre.
Existe outro caminho que eu conheço e nunca uso? Sim existe! Mas eu uso os mesmos caminhos para os mesmos lugares, porque já conheço. Mudo de vez em quando, aumentando as possibilidades para 2 opções de caminhos (rs).

A ficha caiu ali, e caiu torta.

Meu pai come arroz com feijão todos os dias e sabe que come arroz com feijão todos os dias. Ele escolheu, assumiu e dorme em paz. Eu vario o cardápio mas travei todo o resto: o mesmo trajeto, a mesma ordem de tarefas, o mesmo formato de trabalho, as mesmas pessoas no WhatsApp... e chamo isso de ter uma vida. Cômico!

O meu automatismo não sumiu. Ele só mudou de endereço, e eu comemorei a mudança achando que era liberdade.

E a mecânica cerebral disso é constrangedora.
Wendy Wood, em 2002, deu bipes a universitários e mandou anotar de hora em hora o que estavam fazendo: 43% era repetição quase diária, no mesmo lugar, com a cabeça em outro assunto.
Ann Graybiel, no MIT, treinou ratos pra correr um labirinto em T atrás de chocolate, com eletrodos ligados na região do cérebro deles que arquiva sequências já decoradas. Nas primeiras corridas, aquela região disparava do início ao fim do percurso. Depois de centenas de repetições, disparava só em dois momentos: no clique que abre o portão e na chegada do chocolate. No meio do caminho, silêncio. E quando os pesquisadores estragaram o chocolate com uma substância de gosto ruim, os ratos correram o labirinto do mesmo jeito.

Traduzindo o seu cérebro premium: ele apaga no meio do trajeto e continua fazendo o percurso muito depois de o chocolate ter estragado.

Você já chamou de "gosto pessoal" uma coisa que era só a rota que seu cérebro salvou pra gastar menos?

Foi fácil, né? Achar graça no senhor de 74 anos e no rato correndo atrás de chocolate estragado.
Guarda essa graça, é a última coisa boa que vai te acontecer nesta edição.

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