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Domingo, 15hs e eu sentada na cama.... pernas dobradas debaixo do corpo numa posição que o quadril vai cobrar no dia seguinte.

No notebook, um vídeo sobre a biblioteca de Nag Hammadi rodando em fones de ouvido. Ao lado, O Sagrado e o Profano, do Mircea Eliade, aberto na página 87. No tablet, um capítulo do Jung sobre a sombra.

Três janelas… três autores… mesma obsessão.

Em algum momento, entre uma frase do Eliade e um comentário do narrador, uma pergunta atravessa:

O que é, exatamente, que estou fazendo aqui?

Olho pro relógio… estou na mesma posição há 2h40 min.
Não levantei pra beber água, não olhei o celular, mas a página 87 do Eliade, eu já reli 3 vezes.

Estudo apócrifos, hermetismo, simbolismo e conhecimento esotérico há anos.
A estante tem desenvolvimento humano, finanças, negócios e uma quantidade indecente de teorias sobre tudo o que a humanidade teria preferido manter escondido.

E nesse domingo, lendo sobre o que foi censurado do cristianismo primitivo, uma outra pergunta vem junto:

Por que conhecimento escondido parece automaticamente mais interessante que conhecimento disponível?

Por que a palavra "apócrifo", “proibido”, “oculto” aceleram a atenção, e a palavra "manual" desliga?

A resposta dói.

Já tentei resolver isso de várias formas.

Comprei um curso de hermetismo aplicado no ano passado. Assisti 17 aulas. Decorei a sequência dos 7 princípios do Caibalion e continuei adiando a mesma decisão profissional por 4 meses. (a decisão não tinha nada de hermético, só de inconveniente.)

Maratonei 6 horas de vídeo sobre os Manuscritos do Mar Morto numa madrugada de sábado. Saí com a certeza vibrante de saber algo que ninguém mais sabia. Na terça, entreguei um projeto pela metade.

Li o Eliade, li o Campbell, li metade do Frazer. (todo mundo lê metade do Frazer, a outra metade é mentira coletiva.) Engoli a teoria do herói, identifiquei a minha jornada em quatro arquétipos diferentes, e continuei a mesma pessoa que entra em loop quando o cliente pede uma revisão de copy.

Cada imersão deixou o mesmo gosto na boca: a sensação ilusória de evolução, sem o trabalho chato de mudar.

O detalhe inconveniente é que esse padrão não se resolve sozinho... ele se sofistica.

Daqui a 3 anos, alguém vai ter a estante ainda mais densa. Eliade, Jung, Hermes Trismegisto, Helena Blavatsky, Steiner, talvez até o Crowley pra impressionar nas conversas erradas. Vai conseguir explicar a diferença entre gnosticismo valentiniano e setiano pra qualquer pessoa que tenha o erro de perguntar.

E vai continuar congelado nas mesmas decisões.

Toda vez que perguntas reais sobre identidade, dinheiro, conflito e medo começam a fazer barulho na cabeça, esse alguém abre o navegador, digita "conhecimentos ocultos" e some por mais 5 horas. (será que isso acontece só comigo?)

A fuga fica tão letrada que parece busca espiritual, inclusive pra quem está fugindo.

A neurociência explica e não consola.

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