Minha irmã faz chocolates artesanais. Desses que derretem na boca antes de você terminar de decidir se mastiga ou deixa dissolver. Desses que você compra jurando que vai durar a semana e some em dois dias.
Em um sábado à tarde, mandei mensagem no WhatsApp pedindo alguns exemplares do novo lançamento. Mais tarde ela veio trazer... na hora de pagar, perguntei:
"Quer que te pague no Pix ou em dinheiro vivo?"
Ela respondeu:
"Ah, você escolhe,, tanto faz."
Senti aquela coceira no maxilar. Aquela tensão que aparece quando algo te irrita e você ainda não sabe por quê.
Insisti.
"Não, sério. Pix ou dinheiro? O que é melhor pra você?"
Ela deu de ombros. O tipo de ombro que levanta e cai como se a pergunta não merecesse o esforço de uma resposta completa.
"Tanto faz. Você quem manda."
Quatro palavras.
Fiquei parada ali, chocolate na mão, sentindo o calor dele atravessar a embalagem.
Não era sobre a forma de pagamento... nunca foi.
Era o reflexo automático. O padrão tão entranhado que ela nem percebeu que fez.
Entregar a uma pequena decisão pra outra pessoa como quem entrega um casaco pro manobrista.
E ali, com o chocolate amolecendo entre meus dedos, percebi que faço a mesma coisa em vários momentos.
Que você faz a mesma coisa…
Que a maioria faz!
O manobrista cósmico
A gente terceiriza decisões o tempo inteiro.
Não com chocolate, mas com coisas que definem pra onde a gente vai.
"Vou deixar o universo decidir."
"Se Deus quiser."
"Estou aberta pro que vier."
"Tá nas mãos Dele."
"Se for pra ser, vai ser."
Soa bonito, espiritual e até evoluído.
Mas traduzindo pro português sem filtro:
"Não quero escolher porque escolher significa ser responsável pelo resultado."
Pronto. É isso.
Se você não escolhe e dá certo, você teve sorte.
Se você não escolhe e dá errado, a culpa é do universo. De Deus. Do destino. De Mercúrio retrógrado. De qualquer coisa que não seja você.
Conveniente, né?
Olha, respeito a fé. Cada um com a sua. Isso é pessoal e intransferível.
Mas deixa eu cutucar um pouco pra você pensar.
