Tem um cara que transformou uma entrevista de jornal (dada numa fase em que ele nem tinha dinheiro pro aluguel) na fundação de um império de autoajuda que já dura quase cem anos e ainda fatura milhões todo santo ano, e a conta nunca fechou direito na minha cabeça: como uma conversa de 20 minutos vira um século de império?
Era terça-feira, 10hs da manhã, e eu estava numa dessas rotinas que ninguém chama de trabalho mas é exatamente isso: o polegar subindo o feed do Instagram no automático, o energético já morno suando em cima da mesa, o olho treinado varrendo trezentos posts atrás de qualquer coisa que servisse de matéria-prima pro meu nicho (o glamour da vida de estrategista de conteúdo, ninguém avisa no contrato que tem energético morno às nove da noite envolvido, rs).
Foi então que um nome travou o meu polegar no ar, um nome que eu conheço melhor do que conheço o CEP da minha própria casa: Napoleon Hill.
Se você gosta de desenvolvimento pessoal tanto quanto eu gosto, já esbarrou nele. "Quem Pensa Enriquece" é, sem exagero, a certidão de nascimento de toda a indústria de autoajuda que existe hoje, e eu tenho 3 livros dele lidos e mais 2 não lidos na estante, a menos de dois metros de onde escrevo essa edição.
"A Lei do Triunfo" foi a minha porta de entrada. "Mais Esperto que o Diabo" foi o que eu mais amei, um daqueles livros que te agarram pela gola da camisa num domingo de manhã e dizem exatamente o que você não queria ouvir.
O post falava sobre a história mais importante da carreira dele, a que sustenta o mito inteiro em cima dela.
A lenda é simples, bonita e resiliente: um jovem repórter entrevista Andrew Carnegie, o homem mais rico do planeta na época, e Carnegie fica tão impressionado que entrega a ele uma missão de 20 anos (sem salário) pra decifrar a fórmula de sucesso dos grandes homens da América (na boa, no fim dessa edição você vai ver o quanto esta história se parece com os contos de fada da Disney rs).
A entrevista acabou e o império começou ali.
Hoje os livros nascidos dessa missão já venderam, segundo estimativas do próprio mercado editorial, mais de 250 milhões de cópias, o tipo de número que só existe quando uma história para de ser história e vira crença coletiva.
Só que aqui é onde a coisa começa a ficar desconfortável…
As investigações que o post citava, a mais dura delas assinada pelo jornalista Matt Novak no Gizmodo e outra pelo pesquisador Mitch Horowitz, chegam numa conclusão desconfortável: esse encontro provavelmente nunca aconteceu.
