Semana passada foi meu aniversário…

Não sou o tipo que faz alarde. Não posto contagem regressiva nos stories como se fosse um réveillon pessoal. Não organizo festa. Não mando indiretas constrangedoras pedindo parabéns. Quem lembra, lembra. Quem não lembra, vida que segue.

Eu sou introvertida… e talvez já tenha citado isso anteriormente. O tipo de pessoa que prefere um livro a uma balada, silêncio a música alta, dormir cedo a acordar de ressaca sem lembrar por que gastou dinheiro em drinks que nem gostava.

Mas um time que jogo (eu sou atleta, caso você ainda não tenha lido algumas edições anteriores 😁) postou parabéns nos stories. Me marcaram e claro que repostei.

E aí fiz o que todo ser humano com acesso à internet finge que não faz:

Fui espiar quem visualizou (Curiosidade é uma 💩).

127 pessoas viram.

Dessas, uns 15% vieram no privado dar parabéns. O resto fez o que a humanidade faz de melhor: viu, absorveu a informação, passou o dedo pra cima e seguiu scrollando como se nada tivesse acontecido.

Normal. Comportamento padrão e nenhuma surpresa.

O silêncio que pesa mais que palavras

No dia seguinte fui jogar um futsal.

Jogo com o mesmo grupo de meninas há três anos. Quase toda semana. Mesmo horário. Mesmas chuteiras batidas. Mesmas reclamações sobre a marcação. Mesmos apelidos que surgem quando alguém perde um gol feito.

Três anos. Tempo suficiente pra criar alguma coisa, não é? Bom… talvez!

Várias delas tinham visto o story que repostei. Eu sabia, claro! Apareceram na lista de visualizações. Nome por nome… visualizado às 14h… visualizado às 15h… visualizado às 18h.

Cheguei na quadra. Amarrei a chuteira. Alonguei, aqueci…. enquanto fingia não estar prestando atenção em quem chegava. Joguei os 60 minutos. Levei uma entrada na canela que vai ficar roxa por duas semanas.

E nenhuma… nenhuma deu parabéns. 😑

Nem um "vi que foi seu aniversário" murmurado enquanto a gente esperava o escanteio.

Nem um "parabéns atrasado, desculpa a memória de peixe" no final.

Silêncio absoluto. Como se o story não existisse. Como se meu aniversário fosse um evento tão irrelevante que não merecia nem os dois segundos que leva pra digitar "parabéns". (Ah ego, como te odeio às vezes!)

Voltei pra casa mancando da canela e com um pensamento grudado na cabeça como chiclete em sola de sapato:

"Não devo ser tão querida quanto imaginava." 🤔

O tribunal que você mesmo convoca

Sabe aquele tribunal interno? Aquele que te acorda às 2h da manhã quando você deveria estar dormindo?

Pois é… Convoquei sessão extraordinária.

Será que fiz algo errado?

Silêncio no júri…

Será que xinguei muito que ofendi alguém?

O juiz coça a cabeça…

Será que três anos de convivência semanal não significam absolutamente nada e eu sou só mais uma peça intercambiável no tabuleiro?

A promotora na minha mente apresenta as provas: 127 visualizações, zero parabéns presenciais.

Veredicto preliminar: você é invisível. Parabéns. Quer dizer, não parabéns.
Ninguém vai te dar parabéns mesmo. 👽

O cérebro é um advogado brilhante. Pega uma evidência, uma única migalha de evidência, e constrói um caso inteiro. Completo, com testemunhas, com provas circunstanciais e com aquela conclusão devastadora que parece tão lógica que você nem questiona.

E você condena você mesmo antes de perceber que o julgamento era furado desde o início.

O espelho que você não quer olhar

Mas aí eu parei… respirei.

E fiz algo perigoso para a maioria: pensei de verdade.

Aristóteles disse há mais de 2 mil anos que quando queremos ver nosso próprio rosto, olhamos o rosto do amigo. Que o amigo é um espelho. Um segundo eu.

O que ele não disse, mas tá implícito, é o seguinte: se você não gosta do que vê no espelho, o problema não é o espelho.

As meninas são legais e adoro elas. Gosto de jogar com elas. Mas quando o apito final soa, nossos mundos se separam como óleo e água.

Elas querem ir pro bar depois do jogo, tomar uma cerveja gelada. Talvez uma fofoca sobre alguém. Ficar até meia-noite rindo de coisas que eu não acho graça nem fingindo muito bem.

Eu só quero ir pra casa. Tomar um banho e dormir às 22h… pra acordar às 5h e ir pra academia enquanto o mundo ainda ronca. Falar de negócios, de ideias, de estratégias malucas que talvez funcionem. Não de pessoas, não de novela e muito menos de quem postou o quê no Instagram.

A gente divide um campo de futebol.

Só isso.

60 minutos por semana de suor compartilhado não cria intimidade. Cria coleguismo. E coleguismo não lembra aniversário. Coleguismo mal lembra seu nome quando te encontra no supermercado.

O algoritmo invisível

Aqui entra a parte que pode doer.

Seu cérebro carrega um conjunto de crenças sobre quem você é, o que você merece, como os relacionamentos funcionam. A maioria dessas crenças foi instalada antes dos 7 anos, quando você não tinha nem capacidade crítica pra questionar o que estava absorvendo.

Mamãe disse que você era difícil de lidar? Instalado. Papai nunca estava presente? Instalado. Os colegas de escola te excluíam? Instalado. Alguém importante te fez sentir que você precisava se esforçar pra merecer atenção? Instalado.

E agora, décadas depois, essas crenças operam como um algoritmo invisível.

Você olha pra uma sala cheia de gente e seu cérebro, em milissegundos, descarta 95% e te direciona pros 5% que confirmam a programação antiga. Não é escolha consciente. É um filtro automático.

Neurocientistas chamam isso de "viés de confirmação aplicado a relacionamentos". Seu cérebro busca evidências que provem o que você já acredita. Ignora o resto. Deleta ativamente informações que contradizem a narrativa.

Se lá no fundo você acredita que não é digno de atenção real, vai se cercar de pessoas que não te dão atenção real. E vai chamar isso de "meu tipo de amizade".

Se lá no fundo você acredita que precisa se esforçar pra ser amado, vai se cercar de pessoas que exigem performance constante. E vai chamar isso de "relacionamento".

Se lá no fundo você acredita que profundidade afasta as pessoas, vai se cercar de gente rasa. E vai chamar isso de "proteção".

Você não atrai. Você seleciona… inconscientemente.

O externo é radiografia do interno

As pessoas ao seu redor não são acidente. São um diagnóstico!

O mundo externo funciona como espelho. Cruel, silencioso, mas honesto.
Ele não te mostra o que você quer ver.
Mostra o que você é.
O que você acredita.
O que você aceita.
O que você tolera.

Jung disse que tudo que te irrita no outro é um ensinamento sobre você mesmo.

Irritante, né? Principalmente porque é verdade. 🤭

Se você está sempre atraindo o mesmo tipo de pessoa, sempre caindo nos mesmos padrões, sempre se perguntando "por que eu de novo?", a resposta não está lá fora.

Está nos padrões que você carrega.

O externo é espelho do interno. Muda o interno, o reflexo muda junto. Não por mágica... por mecânica mesmo.

Seu cérebro filtra a realidade baseado no que espera encontrar.
Muda a expectativa, muda o filtro.
Muda o filtro, muda o que você percebe.
Muda o que você percebe, muda com quem você se conecta.

Matemática simples!

O preço que eu paguei (e você também paga)

Voltando pro meu aniversário silencioso.

Eu escolhi ser quem sou.

Escolhi livros em vez de bares. Madrugadas de sono em vez de ressacas improdutivas. Conversas sobre ideias em vez de conversas sobre pessoas. Profundidade com poucos em vez de superficialidade com muitos.

Essas escolhas têm um preço.

O preço é que muitas pessoas não vão se conectar comigo de verdade. A gente vai dividir gramado, não intimidade. Vai suar junto por 60 minutos e depois voltar pra planetas diferentes orbitando sóis completamente distintos.

E sabe o que eu fiz com essa informação?

Fiquei em paz.

Porque não é rejeição. É apenas incompatibilidade.

Não é que eu não sou querida. É que temos preferências diferentes.

Aristóteles também falou sobre isso.
Disse que existem 3 tipos de amizade: por utilidade, por prazer e por virtude. As duas primeiras se dissolvem quando o interesse ou o prazer acaba. Só a terceira, baseada em quem as pessoas realmente são, permanece.

Eu tinha amizade de utilidade esportiva com aquelas meninas. Útil pros 60 minutos. Dissolvida no apito final.

E tá tudo bem.

Quando você faz escolhas de verdade, escolhas que definem quem você é e quem você não está disposto a ser, você perde coisas… pessoas… convites... grupinhos... aniversários lembrados. Faz parte da escolha!

É o preço da entrada.

E o preço é justo.

O que fazer com isso

Se você está em loop, atraindo sempre o mesmo tipo de pessoa, repetindo os mesmos padrões como um disco arranhado, a resposta não está lá fora.

Está nas crenças que você instalou sem perceber.

Está nos filtros que você não sabia que estavam ativos.

Está no espelho que você evita olhar de frente.

Muda o interno, o externo muda junto.

Mas mudar o interno significa encarar o que você prefere não ver.
Significa questionar crenças que você carrega há décadas.
Significa admitir que talvez, só talvez, você tenha sido co-autor dos padrões que tanto reclama.

Não é culpa... é responsabilidade.

Culpa paralisa… responsabilidade liberta.

Porque se você criou o padrão, você pode mudar o padrão.

Mas primeiro precisa ver.

E ver dói.

Bem-vindo ao jogo.

P.S.: No caminho de volta do campo, pensei em todas as vezes que eu vi o aniversário de alguém, pensei "depois mando parabéns" e o "depois" virou "nunca". A gente faz isso. A diferença é o que você faz quando está do outro lado. Eu escolhi parar de esperar reciprocidade de quem opera com crenças e mentalidade diferentes das minhas. Não por mágoa ou por me achar melhor que ninguém. Por economia de expectativa e respeito à quem eu escolhi ser!

P.P.S.: Agora responde esse e-mail pra mim com o tipo de pessoa que você atrai e me diz o que vai fazer para mudar isso:

1️⃣ Sempre atraio o mesmo tipo de parceiro
2️⃣ Sempre atraio o mesmo tipo de amizade
3️⃣ Sempre atraio o mesmo tipo de oportunidade (ou falta dela)

Abraço

Cris Andrade
Alquimista do Caos

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