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Uma amiga minha veio me visitar semana passada.
Parou na frente da minha estante de livros... mais de 200 exemplares organizados por tema. Junto à eles eu tenho alguns artefatos decorativos porque gosto muito de simbologia, de arquétipos e de objetos com significado.

Ali com os livros eu tenho um Buda de cerâmica, um pequeno gongo decorativo com o símbolo do Yin Yang ao centro e 3 orgonites em formato de pirâmide. Ela ficou olhando minha decoração por alguns minutos enquanto me perguntava como andava a vida… e depois de alguns segundos em silêncio, falou: "não gosto dessas coisas."

Eu, sempre disposta a compartilhar o que sei (defeito de fábrica, aceito sugestões de como consertar), me ofereci: "quer que eu te explique o que cada uma significa?"

"Não. Isso vai confundir minha cabeça."

Fiquei uns 5 segundos em silêncio… e o silêncio não era falta de uma resposta.
Era o barulho de uma conta fechando na minha mente.
Ela tinha acabado de admitir, sem perceber, 3 coisas ao mesmo tempo:

  • que ela sabia que aquilo tinha profundidade (senão não usaria a palavra "confundir", ninguém teme se confundir com algo raso);

  • Que ela preferia a certeza vazia à dúvida cheia;

  • E que ela tinha consciência sobre si mesma o suficiente pra evitar, mas não o suficiente pra admitir que estava evitando.

Bela fuga.

O que o cérebro faz quando a verdade bate na porta

Um cientista chamado Jonas Kaplan fez um experimento com 40 pessoas muito convictas. Ele as colocou em uma máquina de ressonância e passou a apontar alguns furos nas crenças que elas mais amavam. Ele filmou o cérebro delas no instante exato em que a certeza levava o soco.

A amígdala, disparou… igual dispara quando se corre perigo de vida.
Quanto mais forte o disparo, menos a pessoa mudava de ideia (a cabeça mais fechada era a mais ameaçada). O corpo tratou uma ideia contrária exatamente como trataria uma cobra: sem examinar, sem negociar, só fugir!

Veja… sua cabeça guarda um modelo de quem você é, do que você acredita e de como o mundo funciona. Ela usa esse modelo o tempo todo pra prever se pode confiar em alguém, pra discernir se uma decisão é segura ou se amanhã ainda faz sentido.
Quando algo contradiz uma peça desse modelo, o cérebro não trata isso como uma simples informação nova, trata como uma ameaça, do mesmo jeito que trataria um perigo de verdade.

Foi isso que aconteceu com a minha amiga.
Ela não fechou a cabeça à toa... fechou porque, no segundo em que uma orgonite em forma de pirâmide virou pergunta, uma parte antiga do cérebro dela achou que algo importante estava em risco. E quanto mais risco o cérebro dela percebeu, mais convicta ela ficou depois, no "não gosto e ponto final". A certeza dela veio mais do medo do que de ter pensado.

O peso que cada um aguenta

Nietzsche escreveu isso há mais de 100 anos, sem pesquisa em ressonância magnética, sem amígdala catalogada… só observando pessoas.

Cada um escolhe o grau de verdade que consegue suportar.

Nietzsche

Ele não estava falando de covardia... estava falando de física.
A verdade tem peso e cada cabeça aguenta uma carga diferente antes de “rachar”.
Kaplan só filmou o rachar mas Nietzsche já sabia que a rachadura existia.

E aqui é onde você, que está lendo isso achando que tem estômago forte, precisa se sentar. Porque todo mundo acha que o próprio limite é alto.
É fácil ter estômago pra verdade sobre política, sobre a vida alheia, sobre um assunto que não te pega forte.
O teste de verdade não é esse, é o assunto específico que faz você mudar de conversa rápido demais, aquele comentário que você corta antes da pessoa terminar, o "não gosto e ponto" que sai da sua boca sem nem pensar sobre.

Ali, exatamente ali, está o seu grau. E ele é bem mais baixo do que a sua estante de livros sugere.

Depois do silêncio, eu queria ter raiva dela… seria mais fácil. Mas não era raiva, era uma inveja meio torta: ela dorme tranquila… e eu não (enfrentar crenças enraizadas tira o sono de verdade).

Porque a minha estante é bonita e serve até pra me convencer todo dia que eu encaro qualquer coisa.

200 livros, deuses de 3 continentes, e eu aqui achando que isso me faz corajosa rs.
Faz nada… só me faz curiosa nos assuntos que não me custam nada.

A verdade que incomoda mesmo eu também empurro pra debaixo do tapete, igualzinho a ela recusando os orgonites.
A minha provavelmente eu dou um nome mais interessante e menos crítico.

Todos nós sofremos desse desvio…
É aquele assunto que você corta rápido, a conversa que você desvia maliciosamente, a pessoa que você parou de escutar no segundo em que ela começou a te contradizer... Você pode até chamar de seletividade.. mas é a mesma tática que a mente da minha amiga usou fugindo do desconhecido.

Ninguém foge da verdade por ignorância... foge porque sabe exatamente o quanto ela pesa, e provavelmente já calculou (mesmo que inconscientemente) que não quer carregar.


Se Nietzsche ainda estivesse vivo, talvez ele te diria:

Não fuja da carga: escolha-a.
O que você evita não desaparece, apodrece nas suas costas e chama de destino aquilo que foi só covardia repetida. Torne-se forte o bastante para olhar o que te contradiz sem correr, porque o homem que só suporta as verdades que o agradam ainda não começou a viver.
Ame inclusive o que te fere, pois é ali, exatamente onde dói, que você escolhe crescer ou apodrecer... escolha crescer!

📚 Livro desta edição: A Gaia Ciência, de Nietzsche. É o livro onde ele larga a ideia de que a força de uma pessoa se mede pela quantidade de verdade que ela aguenta sem precisar diluir. Não é uma leitura de cabeceira relaxante ok? É um espelho, dos que não perdoam.

Abraço

Cris Andrade
Alquimista do Caos

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