O meu WhatsApp apitou numa terça-feira à tarde e eu já sabia que ia me arrepender de abrir. 🤦♀️
Era a cliente do livro infantil. Um projeto que começou simples e foi virando um pesadelo em câmera lenta, daqueles que você assiste acontecer sabendo que vai dar merda mas não consegue desviar.
A mensagem dizia assim:
"Cris, meu consultor pediu pra trocar a fonte do título pra uma serifada e mudar o fundo pra verde porque combina melhor com o tema do livro."
Fiquei olhando pro notebook com aquela cara que você faz quando alguém te explica física quântica usando astrologia como referência.
O consultor pediu. 🙄
O consultor dela era um assistente no ChatGPT que alguém tinha configurado pra "orientar" ela referente ao projeto (e não referente à copywriting, storytelling, design ou psicologia das cores).
Um robô treinado pra responder qualquer pergunta com a confiança de quem nunca sentiu o gosto amargo de estar errado.
E agora esse robô estava me dando ordens sobre tipografia e psicologia das cores através de uma mulher que não fazia a menor ideia do que estava falando, mas repetia tudo com a convicção de quem tinha acabado de receber a verdade revelada do Santo Graal.
Fonte serifada pra livro infantil… verde no fundo... porque o consultor mandou.
Deixa eu voltar um pouco pra você entender o tamanho do buraco.
Essa cliente me contratou pra escrever um livro infantil. Eu mandava os capítulos, ela revisava, a gente ajustava, seguia em frente. Processo normal que qualquer pessoa que já trabalhou com texto conhece.
Só que ela não revisava.
Ela pegava o arquivo que eu mandava, jogava pro ChatGPT, e perguntava se estava bom. Se o robô dissesse que estava bom, ela me mandava um "aprovado, pode seguir" e partia pro próximo capítulo.
Sem ler uma linha do que eu tinha escrito.
Sem formar uma opinião sobre a história que ia ter o nome dela na capa.
Sem nem fingir que tinha olhado aquilo que crianças iam ler.
O consultor digital aprovou? Aprovado está. Segue o baile.
O livro ficou "pronto" e ela finalmente resolveu ler. Pela primeira vez... depois de tudo finalizado, diagramado, com as ilustrações encomendadas.
Aí vieram as alterações.
30 mudanças! Trinta... porque ela achou que a ordem das palavras não funcionava, ou que o texto não combinava com a imagem, ou porque simplesmente não gostou do jeito que uma frase soava.
Coisas que ela teria visto na primeira página se tivesse lido a primeira página.
7 dias de retrabalho que poderiam ter sido evitados se ela tivesse feito o mínimo que se espera de alguém que está publicando um livro: ler o próprio livro.
(Detalhe, ela me dizia que não sabia explicar direito pra mim como ela queria as coisas, por isso pedia ao chatgpt e mandava pra mim).
Mas espera que piora.
Depois de todas as ilustrações prontas (que eu também fiz pra ela) e finalizadas, ela decidiu que queria mudar o personagem principal.
O personagem principal.🤬
