O cheiro de feijão requentado grudava nas paredes como testemunha de uma vida que se recusava a mudar de cardápio.
Eu trabalhava em uma academia de musculação municipal e gratuita. A cozinha tinha aquela luz fluorescente amarelada, daquelas que fazem todo mundo parecer doente. A pia de inox tinha manchas de ferrugem no canto porque, digamos que a manutenção ali era coisa rara.
A esponja verde estava desbotada. Já havia passado do ponto de troca há pelo menos um mês mas ninguém jogava fora, porque isso exigiria uma vaquinha pra comprar outra.
Um dos professores, de uns 45 anos na época, esfregava uma marmita de plástico gasta. Movimentos circulares lentos, quase hipnóticos. Vinte e três segundos esfregando (sim, eu contei), como quem viajava por outra dimensão e estava só de corpo presente.
Ele trabalhava 12 horas por dia. 8hs na prefeitura e 4hs dando aula para adolescentes em um colégio estadual, no mesmo bairro.
E reclamava:
A prefeitura não valoriza… o salário não acompanha a inflação e mais 18 reclamações tí. As mesmas frases que eu ouvia dele desde que ele entrou ali nove anos atrás.
Eu olhei pra pia... olhei pra marmita… pra esponja desbotada… olhei pra ele…. e você já deve imaginar.
A frase saiu (porque nem sempre eu consigo pensar de boca fechada)!
"Você não é uma árvore. Pode mudar quando quiser."
O silêncio que veio depois pesou mais que a marmita com feijão do mês passado. Ele me olhou como se eu tivesse cuspido no prato dele... e talvez tivesse.
Talvez fosse exatamente isso que ele precisava ouvir há nove anos e ninguém teve coragem de dizer porque dizer a verdade para alguém confortável na própria miséria é o tipo de coisa que acaba com amizades e convites pra festas e eventos de fim de ano.
Eu trabalhei 14 anos no funcionalismo público.
Dei aula de musculação nessa mesma academia, com essa mesma luz amarelada e essa mesma pia de inox manchada. Eu gostava do que fazia, gostava de ver gente evoluindo, de criar um vínculo com alunos que provavelmente nunca pisariam numa academia particular porque não tinham como pagar.
Fiz vários amigos ali… pessoas de verdade.
Mas todo santo dia eu assistia a mesma cena: pessoas que trabalhavam ali pelo dinheiro ou pela mentira que chamam de estabilidade. Chegavam com cara de quem perdeu uma aposta consigo mesmo, faziam o mínimo porque nada mudava se fizessem o máximo (na verdade mudava, mas elas não estavam preparadas para esta conversa), reclamavam de tudo e de todos como se verbalizar a insatisfação contasse como fazer algo a respeito, e iam pra casa repetir o ciclo no dia seguinte. E no outro… constantemente. Até que um dia acordam com 58 anos, três hérnias de disco e a certeza absoluta de que a culpa é do governo, dos alunos, do salário, da vida.
De qualquer coisa menos suas escolhas.
Eu pedi exoneração alguns meses depois daquela conversa.
Não porque o lugar fosse ruim, ou porque as pessoas fossem más, mas porque em algum momento eu percebi que pra quem eu queria me tornar, eu simplesmente não cabia mais ali.
E ficar seria apenas uma versão mais lenta de me tornar o cara da marmita. Com frases diferentes, talvez ou com reclamações mais sofisticadas... mas a mesma dinâmica de fundo: esperar que o mundo mude enquanto você esfrega a marmita suja.
Foi aí que eu entendi algo que mudou meu jeito de ver tudo:
