31 de dezembro. 23h47.
Banheiro da festa. Porta trancada. Luz fluorescente daquelas que deixam qualquer um com cara de ressaca antecipada.
Ela está sentada no vaso fechado, não por necessidade fisiológica, por necessidade existencial. Celular na mão. App de notas aberto. Dedos se movendo com urgência de quem assina testamento.
"METAS 2025" em caps lock. Como se volume visual transformasse fantasia em contrato.
Do lado de fora, alguém grita que faltam 12 minutos. Ela ignora. Isso aqui é importante.
Academia 4x por semana. (Dessa vez vai.) Ler 2 livros por mês. (Comprei até Kindle novo.) Acordar às 5h30. (Já vi vídeo do CEO que acorda às 4h, então 5h30 é até razoável.) Beber mais água. Menos açúcar. Mais presença. Menos celular. Mais gratidão. Menos reclamação.
A lista cresce. A pupila dilata. Aquele formigamento no peito que se confunde com determinação mas é só espumante barato encontrando esperança no sangue.
23h52. Fogos começam antes da hora porque brasileiro não espera nem pra explodir pólvora.
Ela salva. Fecha o app. Levanta. Alisa a roupa. Volta pra festa com sorriso de quem acabou de resolver a vida.
E enquanto brinda com gente que também acabou de escrever ficção científica sobre si mesma, uma estatística paira silenciosa sobre a sala como aquele tio bêbado que ninguém convidou:
92% dessas listas vão virar piada interna até março.
Não metade. Não "muitas". Noventa e dois por cento.
Ela olha ao redor. Vinte pessoas brindando.
Dezoito vão abandonar tudo antes do Carnaval.
Estatisticamente, ela provavelmente é uma das dezoito.
(Calma. Eu também já fui. Várias vezes. A diferença é que agora eu sei por quê.)
O golpe de Ano Novo que você aplica em si mesmo
Resoluções têm um defeito de fábrica:
Elas não falham porque você é fraco(a), preguiçoso(a) ou incapaz.
Elas falham porque o ritual inteiro foi desenhado pra falhar.
Pensa comigo.
31 de dezembro. Música alta. Gente bonita. Contagem regressiva. Fogos. Abraços. Lágrimas. Promessas sussurradas pro universo como se o universo tivesse WhatsApp.
Seu cérebro, nesse momento, está CHAPADO.
Não de álcool, embora isso ajude. Chapado de significado artificial.
Dopamina no teto porque é um "momento especial". Serotonina espirrando porque há "conexão humana". Oxitocina fazendo a festa porque existe "pertencimento tribal". É um coquetel químico que custa zero reais e dura aproximadamente até você lavar a louça do dia 1º.
E nesse estado alterado, você toma decisões sobre os próximos 365 dias.
É como assinar contrato de aluguel depois de três caipirinhas. Parece ótima ideia. O apartamento parece maior. O bairro parece mais seguro. O valor parece justo.
Aí você acorda.
O problema não é a ressaca. É que a pessoa que fez as promessas não era você.
Era a versão química de você. A versão dopada de esperança e espumante. A versão que genuinamente acredita que trocar o último número do calendário reconfigura neurônio.
Spoiler: não reconfigura.
Por que seu cérebro odeia suas metas (nada pessoal)
Vou simplificar a neurociência pra você não precisar de dicionário:
Seu cérebro tem duas partes que importam aqui.
Parte 1: O Imediatista
Essa parte quer recompensa agora. Não daqui a seis meses. Agora. Pizza agora. Netflix agora. Scroll infinito agora. Ela evoluiu quando "agora" era a única garantia, porque amanhã você podia virar almoço de predador.
Parte 2: O Planejador
Essa parte faz listas. Projeta futuros. Calcula consequências. Ela evoluiu depois, como upgrade de software. Funciona bem em teoria. Na prática, ela cansa.
E aqui mora o problema:
Toda vez que você decide resistir a um impulso (não comer o doce, não abrir o Instagram, não apertar soneca), você gasta energia do Planejador.
Essa energia é finita. Tipo bateria de celular velho.
E Janeiro é o mês em que você tenta mudar TUDO ao mesmo tempo.
Dieta + treino + sono + produtividade + hidratação + meditação + relacionamentos + estudos + finanças.
Cada "não" que você diz pro impulso drena a mesma bateria.
Terceira semana de Janeiro. Bateria em 4%. Carregador quebrado.
O Planejador apaga. O Imediatista assume.
E aí você se pega comendo brigadeiro de panela às 23h pensando "começo de novo segunda", como se segunda fosse portal dimensional pra versão disciplinada de você que não existe.
(Já escrevi sobre isso em detalhes. Se quiser entender a mecânica completa de como a tal "força de vontade" funciona, e por que ela é a muleta mais instável do universo, tem essa edição aqui. Leia em seguida desta edição. Por agora, só aceita: força de vontade não escala.)
O show da virada e a indústria do fracasso programado
Sabe o que é engraçado?
A mesma cultura que te ensinou a fazer resoluções de Ano Novo lucra quando você falha. Já percebeu?
Academia sabe que 80% dos contratos de Janeiro viram doação mensal até cancelamento por vergonha em Julho. O modelo de negócio DEPENDE de você não ir.
App de meditação sabe que você vai baixar, usar 3 dias, esquecer, e continuar pagando assinatura anual porque dá preguiça de cancelar. O modelo de negócio DEPENDE da sua culpa passiva.
Curso online sabe que taxa de conclusão é 13%. Treze por cento. Eles vendem pra 100, entregam pra 13, e os outros 87 financiam o lucro enquanto acumulam "conteúdo pra assistir depois" como quem acumula roupa limpa pra dobrar "amanhã".
Você não tá falhando sozinho.(a) Você tá participando de um sistema econômico que precisa do seu fracasso pra funcionar.
E a cereja do bolo:
Todo Janeiro, esse mesmo sistema te vende a solução pro problema que ele criou.
"Novo ano, novo(a) você!"
"Dessa vez vai ser diferente!"
"Só precisa de determinação!"
É bonito. É inspirador. E é mentira.
Não porque as pessoas que vendem são más. A maioria acredita genuinamente. Mas acreditar numa mentira não a transforma em verdade. Só transforma você em porta-voz bem-intencionado(a) de um roteiro que nunca funcionou.

O que os 8% fazem diferente (sem guruzisse)
Agora, óbvio: existe gente que muda.
8%, lembra?
Não são mutantes. Não nasceram com cromossomo extra de disciplina. Não acordam todos os dias com vontade inabalável de comer ovo cozido às 6h.
A diferença é estrutural, não motivacional.
O que os 92% fazem:
Focam no resultado. "Quero perder 10kg."
Tentam mudar tudo de uma vez. Nova dieta, novo treino, novo horário, nova rotina, nova personalidade, novo CPF se possível.
Dependem de vontade. "É só eu me esforçar."
Mantêm o mesmo ambiente. Geladeira igual, rotina igual, amigos iguais, gatilhos iguais.
Tratam falha como fracasso. Um deslize = "já era, desisti, recomeço segunda/mês que vem/ano que vem".
O que os 8% fazem: (preste atenção caso esteja viajando)
Focam na identidade. "Sou alguém que se exercita." (Parece bobagem. Funciona assustadoramente bem.)
Mudam uma coisa por vez. Instalam um hábito até ele virar automático. Depois adicionam outro.
Constroem sistemas. Deixam o tênis do lado da cama. Tiram as bolachas de casa. Botam o celular pra carregar na sala. Reduzem fricção pra escolha certa e aumentam fricção pra escolha errada.
Redesenham o ambiente. Porque seres humanos são patéticos contra tentação visível. Você não precisa resistir ao chocolate se o chocolate não existe no seu campo de visão (não leve o inimigo para dentro de casa, isso é básico).
Tratam falha como dado. "Falhei terça. O que aconteceu? Como ajusto?" Em vez de espiral de culpa que termina em maratona de série com sorvete de recompensa irônica.
Não é mágica. É engenharia mental.
E a maioria não faz porque engenharia é chato. Exige pensar. Exige ajustar. Exige admitir que motivação é neblina, aparece bonita de manhã e evapora quando o sol aperta.
Antes de fazer qualquer resolução pra 2025, senta e responde isso com honestidade. Não a honestidade performática de quem quer se sentir produtivo(a). A honestidade real. A que dói um pouquinho.
1) Essa meta específica já apareceu em listas anteriores?
Se sim, você não tem problema de planejamento. Tem problema de execução. E mais planejamento não resolve execução. Só te dá sensação temporária de controle. É masturbação estratégica, prazeroso no momento, inútil no resultado.
2) O que exatamente vai ser diferente dessa vez, em termos de ESTRUTURA, não de vontade?
"Vou me esforçar mais" não é resposta. "Vou deixar a roupa de academia separada na noite anterior e o tênis trancando a porta pra eu tropeçar nele" é resposta. Se você não consegue apontar mudança estrutural concreta, você tá apostando em motivação. E já falamos sobre motivação.
3) Se eu fizesse apenas 20% dessa meta, qual parte geraria 80% do resultado?
A maioria das resoluções são pacotes inflados. "Ficar saudável" vira academia + dieta + suplemento + 8h de sono + meditação + jejum intermitente + gratidão matinal + banho gelado + SMV da firma de gente irritante. Escolhe UMA coisa. A que move mais a agulha. Faz só ela por 90 dias. Depois adiciona. O resto é ego querendo parecer comprometido.
4) O que vou fazer quando (não "se", QUANDO) falhar nos primeiros 14 dias?
Planejamento de falha é mais importante que planejamento de sucesso. Porque falha vai acontecer. Você vai pular treino. Vai comer besteira. Vai dormir até meio-dia. A diferença entre quem muda e quem desiste não é frequência de falha. É o que acontece depois.
Se você respondeu essas 4 perguntas com honestidade, (a de verdade, não a versão editada pro seu ego) você já tá operando num nível que a maioria nem sabe que existe.
Não porque você é especial.
Porque você parou de acreditar que virada de ano reseta química cerebral. (E você já sabe: possui um conhecimentos que só 8% possui!)
P.S.1: Se você já passou a virada escrevendo lista no banheiro enquanto os fogos explodiam, tudo bem. Eu também já fiz. A diferença é que agora eu sei que aquele momento de "clareza existencial" é espumante + dopamina + data arbitrária no calendário gregoriano inventado por um papa em 1582. Não é insight. É química. E você agora também sabe! Faça Diferente este ano!
P.S.2: Se você quer entender por que mudar comportamento é tão absurdamente difícil e o que realmente funciona quando motivação evapora, existem 3 livros que destroem a narrativa do "é só querer":
⭐ "O Mito da Motivação" de Jeff Haden. Título autoexplicativo. Ele mostra que pessoas bem-sucedidas não são mais motivadas que você. Elas só pararam de esperar motivação pra agir.
⭐ "O Obstáculo É o Caminho" de Ryan Holiday. Estoicismo aplicado sem chatice de toga. A premissa: o que você evita é exatamente o que você precisa enfrentar. Desconfortável e verdadeiro.
⭐ "O Ego É Seu Inimigo" de Ryan Holiday de novo. Porque o mesmo cara que te ajuda a enfrentar obstáculos também explica por que seu ego sabota o processo inteiro enquanto te convence de que tá te protegendo.
Três livros. Mesma mensagem: você não precisa de mais inspiração. Precisa de menos autoengano.
P.S.3: Se você leu até aqui em vez de voltar pro Instagram ver stories de gente brindando com legendas sobre "ano de realizações", você provavelmente conhece pelo menos 2 ou 3 pessoas presas no loop eterno de "ano que vem vai ser diferente".
Aquele amigo que compra planner novo todo Janeiro como se espiral de arame organizasse neurônio. Aquela prima que posta foto de academia dia 2 e desaparece dia 18. Aquele parente que transformou "respeitar meu tempo" em escudo contra qualquer coisa que exija mais que 10 minutos de desconforto.
Copia o link. Manda pra eles. Sem contexto. Só joga lá.
Se irritarem, ótimo. Filtro funcionando.
Se lerem até o fim, você acabou de impedir alguém de desperdiçar mais um ano acreditando que calendário muda neurônio.
Me ajuda a estragar a virada de mais gente com verdades inconvenientes?
Abraço,
Cris Andrade
Alquimista do Caos