Vi um vídeo no Instagram esses dias, em pelo menos 3 versões diferentes, o que já diz muito sobre o quanto essa metáfora acerta num nervo que ninguém quer admitir que tem.
Uma mulher entra num restaurante... cabelo preso às pressas, bolsa pendurada no ombro como quem carrega o peso do dia inteiro ali dentro, roupa funcional de quem não teve tempo (ou permissão interna) pra se arrumar. Vamos chamar ela do que ela parece ser: a versão pobre. E não pobre de dinheiro, pobre de permissão, pobre de cardápio interno. Já vai fazer sentido.
O garçom chega, coloca o cardápio na mesa. Apenas uma página nele... e uma única opção: batata frita.
Ela olha, dá aquele suspiro de quem transformou desistência em filosofia de vida, e pede o de sempre: batata frita. Porque é o que tem, porque sempre foi o que teve e porque brigar por coisa melhor dá trabalho e ela já gastou toda a energia do dia fingindo que tá tudo bem.
A batata frita chega. Quentinha, previsível e sem surpresa. Confortável como aquele relacionamento que as pessoas mantém não porque é bom, mas porque recomeçar dá preguiça.
Aí ela olha pro lado.
Na mesa vizinha, a sua versão rica. Cabelo solto, costas retas, postura de quem não pede desculpa por ocupar espaço no mundo. Comendo uma massa suculenta daquelas que você vê e jura que sente o cheiro atravessar a imaginação.
O garfo girando no prato com a calma de quem sabe exatamente o que pediu e por que pediu. Sem pressa, sem culpa, sem aquela cara de "será que eu mereço isso?"
E a versão pobre, com o garfo meio parado no ar e a dignidade levemente amassada, pergunta:
"Como você conseguiu pedir massa? No meu cardápio só tem batata frita."
E a versão rica responde com a naturalidade de quem explica que o céu é azul:
"Não existe cardápio. Você pede o que quiser."
