Vi um vídeo no Instagram esses dias, em pelo menos 3 versões diferentes, o que já diz muito sobre o quanto essa metáfora acerta num nervo que ninguém quer admitir que tem.

Uma mulher entra num restaurante... cabelo preso às pressas, bolsa pendurada no ombro como quem carrega o peso do dia inteiro ali dentro, roupa funcional de quem não teve tempo (ou permissão interna) pra se arrumar. Vamos chamar ela do que ela parece ser: a versão pobre. E não pobre de dinheiro, pobre de permissão, pobre de cardápio interno. Já vai fazer sentido.

O garçom chega, coloca o cardápio na mesa. Apenas uma página nele... e uma única opção: batata frita.

Ela olha, dá aquele suspiro de quem transformou desistência em filosofia de vida, e pede o de sempre: batata frita. Porque é o que tem, porque sempre foi o que teve e porque brigar por coisa melhor dá trabalho e ela já gastou toda a energia do dia fingindo que tá tudo bem.

A batata frita chega. Quentinha, previsível e sem surpresa. Confortável como aquele relacionamento que as pessoas mantém não porque é bom, mas porque recomeçar dá preguiça.

Aí ela olha pro lado.

Na mesa vizinha, a sua versão rica. Cabelo solto, costas retas, postura de quem não pede desculpa por ocupar espaço no mundo. Comendo uma massa suculenta daquelas que você vê e jura que sente o cheiro atravessar a imaginação.
O garfo girando no prato com a calma de quem sabe exatamente o que pediu e por que pediu. Sem pressa, sem culpa, sem aquela cara de "será que eu mereço isso?"

E a versão pobre, com o garfo meio parado no ar e a dignidade levemente amassada, pergunta:

"Como você conseguiu pedir massa? No meu cardápio só tem batata frita."

E a versão rica responde com a naturalidade de quem explica que o céu é azul:

"Não existe cardápio. Você pede o que quiser."

Silêncio... daqueles que fazem barulho por dentro.

A versão pobre fez o que qualquer pessoa faria. Chamou o garçom, cancelou as fritas, pediu massa. Decisão tomada, universo notificado, prato novo a caminho.

E de novo o garçom trouxe... batata frita.

"Eu pedi massa e você me trouxe batata frita."

O garçom, com aquela cara lavada de quem testa sua convicção pra ganhar a vida, ofereceu: "Você quer comer as fritas enquanto a massa não vem?"

E a versão rica, do lado, sem levantar os olhos do prato:
"Você precisa ser muito clara com o que você quer."

"Não, obrigada."

O garçom voltou. Com uma quase-massa.

E a versão rica, de novo: "Era isso que você queria?"

"Não... mas eu tenho que mandar de volta DE NOVO? Eu tô com fome!"

"Você acredita que você merece massa?"

Silêncio... dessa vez, daquele tipo que dói de verdade no estômago.

Ela mandou de volta. Com fome, de prato vazio, enquanto o restaurante inteiro comia ao redor. O barulho dos talheres nos pratos dos outros parecia trilha sonora encomendada pra torturar quem tá de estômago vazio bancando a corajosa.

E a versão rica disse a coisa mais simples e mais honesta da história inteira:

"Não foca na falta. Pensa em como vai ser quando a massa chegar."

A massa chegou... mais rápido do que ela imaginava.

Sempre chega quando você para de aceitar o prato errado.

"Isso provavelmente você herdou dos seus pais."

Essa foi a resposta da versão rica quando a outra perguntou por que carregava um cardápio limitado. E é aqui que a história para de ser metáfora e começa a arrancar pele.

Tenta lembrar... você devia ter uns 7, 8 anos. Sentado na mesa da cozinha, pés balançando porque não alcançavam o chão. E alguém que você amava (e que te amava de volta, isso é importante) disse uma dessas:

"Gente como a gente não faz isso."
"Seja realista."
"Já tem o que comer, pra que querer mais?"

E você, com seus 7 anos e seus pés balançando, engoliu aquilo como verdade absoluta. Junto com o arroz e o feijão, engoliu frases que iam rodar no piloto automático pelos próximos 20, 30, 40 anos.

Essas frases viraram linhas no seu cardápio mental.

É o cardápio que você consulta toda vez que precisa decidir algo importante. Não exatamente o que você escolheu, mas o que te deram. E seu cérebro, que é preguiçoso por design (Daniel Kahneman ganhou Nobel por provar isso, então não sou eu sendo cínica, é ciência mesmo), transformou esse cardápio herdado em filtro automático.

O nome técnico é viés de confirmação seletiva: se você acredita que batata frita é o máximo, seu cérebro vai ignorar evidências de que massa existe, vai minimizar quem conseguiu, e vai fabricar 47 razões "lógicas" pra você continuar pedindo o de sempre.

Marco Aurélio, imperador de Roma (o cara governava um império, combatia pragas, gerenciava guerras em 3 fronteiras e AINDA achava tempo pra escrever diário filosófico, o que torna a sua desculpa de "não tenho tempo pra me conhecer" um tanto cômica), escreveu que a alma se tinge da cor dos seus pensamentos.
2.000 anos atrás... só um cara anotando que você se torna aquilo que repete pra si mesmo todo dia.

Se todo dia você repete o cardápio da batata frita, adivinha o que sua alma acredita merecer?

Pense... você quer fazer R$ 50 mil por mês, mas sua cabeça ainda tá calculando como vai pagar aquele boleto de R$ 300. Todo mundo paga boleto, esse não é o ponto.

O ponto é que quem opera na faixa de 50k não pensa "como vou pagar isso". Pensa "como eu gero mais receita pra que isso vire irrelevante".

O cardápio mental é outro.
A conversa interna é outra, as palavras são outras…
E palavras constroem realidade... não de um jeito místico, de um jeito neurológico mesmo: diálogo interno programa expectativas, expectativas programam comportamentos, comportamentos programam resultados. Kahneman de novo.

TESTE: SEU CARDÁPIO MENTAL (45 segundos)

Lê as frases abaixo e conta quantas você já disse ou pensou nos últimos 30 dias. Sem mentir, né... ninguém tá vendo (a não ser você, e convenhamos que esse já é problema suficiente).

"Não é pra mim, eu não tenho perfil pra isso."
"Quem sou eu pra cobrar esse valor?"
"Um dia eu chego lá" (sem definir onde é "", quando é "um dia", nem como é "chegar").
"Vou tentar" (a frase mais covarde da língua portuguesa disfarçada de coragem).
"Se der certo..." (começando a frase com o fracasso já embutido como opção padrão). "Primeiro preciso me preparar melhor" (a frase favorita de quem vai morrer preparado e inexperiente).

Se marcou 1 ou 2: seu cardápio mental tem umas linhas herdadas, mas você já rabiscou algumas suas por cima.
Se marcou 3 ou 4: mais linhas dos seus pais do que suas. Você tá pedindo batata frita com vocabulário de quem jura que quer massa.
Se marcou 5 ou mais: você não tem cardápio. Tem um testamento de crenças alheias que tá executando fielmente como se fosse obrigação legal. Pode rasgar. Ninguém vai te processar (e se processar, pelo menos é sinal de que você fez algo diferente).

Você pode decidir agora que quer massa.
Mas se amanhã acordar com as mesmas palavras, o mesmo cardápio rodando no automático... o garçom vai trazer batata frita. E você vai comer.
Porque a fome é real, o conforto é sedutor, e a mudança de identidade demora mais que uma epifania de terça-feira à noite lendo newsletter.

A versão pobre não conseguiu massa na primeira tentativa... nem na segunda.
Conseguiu quando parou de pedir como quem pede favor e começou a esperar como quem sabe o que é seu.

A diferença entre as duas nunca foi o restaurante. Foi o cardápio mental que cada uma carregava por dentro.

E o seu... quem escreveu?

P.S.: Eu escrevi uma edição sobre uma técnica que Kobe Bryant, Beyoncé e Martin Luther King usavam pra reprogramar exatamente esse cardápio mental. Pra treinar o cérebro a operar com linhas diferentes das que você herdou. Se essa edição te incomodou, essa é a continuação lógica. Leia aqui

P.S.2: Acredite, eu tô escrevendo essa edição comendo batata frita... de Airfryer, porque é "mais saudável". Só percebi a ironia quando tava terminando esse texto. Não porque não tinha massa no meu cardápio... mas porque já passava das 22h e massa pesa demais pra essa hora. Pelo menos esse cardápio é meu e eu sei por que escolhi. Você sabe por que escolheu o seu?

P.S.3: Três livros pra quem quer rasgar o cardápio herdado:

"Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar" de Daniel Kahneman. Nobel de Economia por provar que seu cérebro toma decisão pelo caminho mais fácil (que geralmente é o pior). Incluindo a decisão de aceitar batata frita porque "é o que tem".

"Meditações" de Marco Aurélio. Um imperador romano escrevendo pra si mesmo sobre como parar de ser refém dos próprios pensamentos automáticos. Dois mil anos e continua mais útil que 90% dos livros de desenvolvimento pessoal publicados esse ano.

"Quebrando o Hábito de Ser Você Mesmo" de Joe Dispenza. Neurociência aplicada à mudança de identidade. Explica por que você continua pedindo batata frita mesmo sabendo que massa existe, e o que precisa mudar no nível neurológico pra isso parar.

P.S.4: Me responde esse e-mail me dizendo qual a sua opção:
1️⃣ Eu sei exatamente qual massa eu quero, mas continuo pedindo batata frita;
2️⃣ Eu nem sei mais o que eu quero (faz tanto tempo que leio o mesmo cardápio que esqueci que tinha opção);
3️⃣ Eu já pedi massa uma vez, voltou batata frita, e eu desisti;
4️⃣ Já passei da fase da massa e já tô escolhendo a sobremesa.

Abraço

Cris Andrade
Alquimista do Caos

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