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Semana passada eu olhei para o meu ritmo de leitura e a conta me irritou: minha meta atualmente é ler 4 livros por mês e eu não estava chegando nem perto dela. (Se comprar livro contasse como leitura, eu já teria resolvido essa parte há alguns anos).

Foi quando voltou uma pergunta que já apareceu aqui na Edição #016:

❝

“Quem eu preciso me tornar pra ser a pessoa que recebe isso?”

Naquela edição eu estava falando de uma meta financeira. Dessa vez pensei em leitura. Quantos livros a Cris que eu quero ser daqui a alguns anos lê por mês?

Mais de 4, claro... 4 é a meta atual. Seria uma evolução meio suspeita passar anos ficando melhor para continuar exatamente no mesmo ritmo.

O incômodo apareceu quando juntei as duas coisas. Eu ainda estava tentando sustentar 4 agora, mas já contava tranquilamente com uma versão futura capaz de ler mais.

A mulher ainda nem existe e eu já aumentei a meta dela.

Existe um conceito que vc já ouviu muito chamado “ser para ter”.
O conceito é interessantíssimo se você pensar de verdade… mesmo depois de a internet ter feito um trabalho quase artesanal para deixá-lo com cara de tolice.

É um fenômeno curioso… um Zé Ruela pega uma ideia sólida, retira toda a parte que envolve custo, tempo e repetição, explica em 40 segundos como se tivesse descoberto uma lei da física no banho... e depois de ouvir aquilo 20x, começamos a desconfiar da ideia.

A ideia não piorou… só foi maltratada em público.

“Ser para ter”, pelo menos da forma como eu entendo, exige uma coisa pouco instagramável: começar a construir antes do resultado as capacidades que aquele resultado vai exigir.

Se a Cris do futuro lê mais do que 4 livros por mês, alguma parte da leitora capaz de sustentar esse ritmo precisa começar a ser construída enquanto esses 4 ainda dão trabalho.

Comecei então a mexer na leitura. Estou fazendo exercícios para aumentar aos poucos a velocidade sem perder compreensão, porque ler 2x mais rápido e não lembrar de nada só me transformaria num scanner avançado. Também passei a ler ficção e não ficção em paralelo e a proteger melhor o horário de leitura.

Foi aí que percebi a quantidade de trabalho que eu já tinha deixado para a Cris do futuro. Na minha cabeça, ela lia mais, escrevia melhor, estudava mais e ainda resolvia tudo que a Cris atual empurrava alguns centímetros para frente.

Quanto mais eu olhava, melhor ficava a vaga. Mais leitura, mais conhecimento, mais capacidade, mais disciplina. A lista crescia e a funcionária, por enquanto, não tinha como reclamar.

Eu tinha contratado uma funcionária para uma empresa que ainda nem existe e já estava deixando serviço acumulado na mesa dela.

Na psicologia existe um conceito chamado future-self continuity, ou continuidade com o eu futuro. Ele descreve o quanto percebemos a pessoa que seremos daqui a alguns anos como uma continuação de quem somos hoje.

Em 2009, Hal Hershfield e alguns colegas colocaram participantes numa ressonância magnética enquanto eles avaliavam características de si no presente, de si no futuro e de outra pessoa, também pensada no presente e no futuro. Essa outra pessoa servia como referência para os pesquisadores compararem o que acontecia no cérebro quando alguém pensava em si e quando pensava em alguém de fora.

Uma semana depois, os participantes escolheram entre receber uma quantia menor de dinheiro imediatamente ou uma quantia maior no futuro. Quanto mais a resposta cerebral ao eu futuro se aproximava do padrão observado quando a pessoa pensava em alguém de fora, maior era a tendência de preferir a recompensa imediata.

Em termos simples, para algumas pessoas, o “eu de daqui a alguns anos” era representado de um jeito mais parecido com outra pessoa. Quanto maior essa distância, mais fácil ficava favorecer o presente e deixar a conta para aquele sujeito distante resolver.

E nós somos generosos demais com essa criatura! Ela vai estudar o que adiamos, terminar o projeto, criar disciplina, encontrar tempo e resolver decisões que continuam abertas hoje. Daqui a 5 anos, aparentemente, terça-feira vem com 38 horas.

Agora pensa numa meta que está na sua vida há tempo suficiente para já ter endereço fixo ali. Você ainda quer aquilo... não desistiu... talvez leia a respeito, faça planos…

Imagine como será quando conseguir. A meta continua viva.

Aí chega uma terça-feira comum e quase nada daquela pessoa aparece.

❝

A meta não sai da sua vida, só sai da agenda.

Esse comportamento é estranho porque a gente não abandona o desejo. Continua alimentando a versão futura, falando dela, imaginando o que fará quando chegar lá... enquanto a vida atual permanece quase intacta.

Se essa distância trouxesse apenas prejuízo, seria razoável imaginar que cedo ou tarde aproximaríamos aquela versão ou desistiríamos dela. Mas muita gente consegue passar anos fazendo uma terceira coisa: querendo e adiando ao mesmo tempo.

Quando um desejo sobrevive tanto tempo sem ganhar espaço proporcional na vida real, vale desconfiar que a distância esteja oferecendo alguma coisa em troca.

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