Era meio da tarde de uma quarta-feira… naquele intervalo entre uma tarefa e outra onde eu deixo a mente vagar um pouco antes de voltar para a próxima tarefa.
Eu estava olhando pela janela, o sol batendo naquela árvore que fica na frente do prédio, quando a pergunta apareceu do nada e sentou na minha cabeça como visita que não foi convidada mas também não quer ir embora.
Semana passada, você deve lembrar, eu escrevi sobre uma cliente que aprovou um livro inteiro sem ler porque o ChatGPT disse que estava bom. Sobre gente que está terceirizando o próprio cérebro sem perceber que virou marionete de algoritmo.
(leia aqui se ainda não leu)
Mas depois que publiquei, algo ficou me incomodando.
Uma pedra no sapato que eu não conseguia identificar direito.
Não era sobre a cliente e não era sobre IA.
Era sobre mim.
E provavelmente, no final dessa edição, vai ser sobre você também.
Todo mundo anda se fazendo as mesmas perguntas ultimamente.
"Como vou ganhar dinheiro quando a IA fizer meu trabalho?"
"Qual curso devo fazer pra não ficar pra trás?"
"Que habilidade vai ser à prova de robô daqui 5 anos?"
"Como me reinvento aos 35, 40, 50 sem parecer desesperado?"
"Será que já é tarde demais pra mudar de área?"
Perguntas válidas... perguntas que enchem auditórios de gente anotando frameworks em cadernos que vão acumular poeira numa gaveta até o próximo seminário sobre o mesmo tema com título ligeiramente diferente.
Mas você já sabe que o segredo está sempre nas perguntas, nunca nas respostas. E essas perguntas, por mais urgentes que pareçam, talvez não sejam as perguntas mais apropriadas…
A pergunta que me pegou naquela tarde de quarta é outra.
E essa queima de verdade.
Quem eu sou se a IA fizer tudo que eu faço?
Eu sou escritora, copywriter, estrategista de conteúdo, social media… Uma "várias coisas" que foi se acumulando ao longo dos anos como camadas de tinta numa parede que ninguém lembra mais qual era a cor original.
É assim que me apresento.
É assim que pago minhas contas.
É assim que as pessoas me conhecem e me procuram quando precisam de algo.
"A Cris escreve. A Cris cria. A Cris resolve..."
Isso virou minha identidade. A habilidade virou quem eu sou. O fazer virou o ser.
Só que isso é o que eu FAÇO. Não é quem eu SOU.
E essa confusão, que parece bobagem de filósofo desocupado, é a bomba-relógio que está prestes a explodir na cara de todo mundo que construiu a própria identidade em cima de uma profissão.
Marco Aurélio, o cara que governou o maior império do mundo antigo, escrevia pra si mesmo todas as noites. Não pra publicar, não pra impressionar senadores, não pra viralizar no fórum romano. Escrevia pra se lembrar de quem ele era por baixo da coroa, das batalhas, das decisões que afetavam milhões de vidas.
Ele sabia que o título era emprestado. Que o poder era passageiro. Que a única coisa realmente dele era o que sobrava quando tirava a armadura e ficava sozinho com os próprios pensamentos.
A maioria de nós nunca tirou a armadura. Usamos tanto tempo que esquecemos onde termina o metal e onde começa a pele.
Até a neurociência explica por que isso acontece.
Seu cérebro tem uma estrutura chamada córtex pré-frontal medial, que funciona como o departamento de identidade da sua mente. Pesquisadores de neuroimagem descobriram que essa região se ativa intensamente quando você pensa sobre si mesmo, quando define quem você é, quando constrói a narrativa do "eu".
O problema é que essa mesma região se ilumina com força quando você pensa sobre seu trabalho, suas habilidades, suas conquistas profissionais. Pro seu cérebro, neurologicamente falando, você e sua profissão se misturam no mesmo circuito. Seu cérebro literalmente não sabe separar muito bem o que você faz de quem você é.
Quando alguém te pergunta "quem é você?" numa festa, o que sai da sua boca antes de você pensar?
"Sou advogada." "Sou designer." "Trabalho com marketing." "Sou terapeuta."
E você acha que está se apresentando, quando na verdade está confessando uma fusão que pode te destruir quando as circunstâncias mudarem. Porque circunstâncias sempre mudam. E profissões, cada vez mais, também.
Seu avô podia ser sapateiro a vida inteira e morrer sapateiro. A identidade profissional durava mais que casamento, mais que amizade, mais que quase tudo. Fazia sentido se definir pelo ofício porque o ofício ia durar até o caixão.
Só que esse mundo evaporou e ninguém avisou o seu córtex pré-frontal.
A carreira de 30 anos virou relíquia. Reinventar-se a cada 5, 7 ou no máximo 10 anos não é mais conselho de palestrante querendo vender curso, é a nova matemática da sobrevivência.
A maioria dos jovens de hoje vai ter múltiplas vidas profissionais, vai trocar de carreira como a geração dos nossos pais trocavam de carro.
E aí vem a IA e joga querosene numa fogueira que já estava fora de controle.
Cada semana surge uma ferramenta nova que faz algo que antes só gente de carne e osso fazia. Texto, imagem, código, música, vídeo, análise, estratégia. O que era habilidade rara ontem virou commodity hoje. O que te diferenciava na semana passada agora qualquer estagiário com acesso à internet consegue replicar no intervalo do almoço enquanto come um pão de queijo.
Eu mexo com IA todo dia, sei usar, sei fazer as perguntas certas, sei identificar quando o robô está inventando dado pra parecer esperto. E mesmo assim, eu sinceramente não faço a menor ideia do que vou estar fazendo daqui dez anos.
Cada dia é aprendizado novo. Cada mês tem ferramenta nova. Cada ano tem profissão sumindo e outra surgindo do nada.
